ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Tarkovski e Miró: do capital social ao político |
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| Autor | Luís Gustavo Baptista e Ribeiro |
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| Resumo Expandido | A comparação entre o pintor catalão Joan Miró (1893-1983) e o cineasta soviético Andrei Tarkovski (1932-1986) pode causar certo estranhamento inicial. De um lado, temos um cinema de associações poéticas que rompe com as regras convencionais de narrativas lineares, mas nem por isso abraça a abstração. De outro, temos uma forma de representar a realidade que a sublima em um conjunto de símbolos comumente caracterizados como opacos ou herméticos, inscrevendo-a justamente no campo da arte abstrata. No entanto, insistimos na validade da aproximação entre os dois artistas que, em última análise, mostram-se interessados em capturar a condição e a psique humanas de maneira muito própria, mediados por visões de mundo similares. Para comprová-lo, recuperamos as trajetórias de ambos: primeiro, no âmbito familiar, como herdeiros de habitus (Bourdieu, 1986) que os lançaram às artes; em seguida, como cidadãos cuja relação difícil com sua terra-natal (Heimat) continuamente os confinou a uma espécie de não-lugar: muito críticos quando vivendo em suas pátrias e altamente saudosos quando distantes delas. Esse movimento se acirra sobretudo nos anos 1970 e 80, últimas décadas de suas vidas, após serem ambos forçados ao exílio pelos regimes dominantes em seus respectivos países. Nota-se como essa ambivalência de origem os levou a elaborações não-convencionais de seus posicionamentos políticos. É frequente que suas obras, embora se esquivem de uma interpretação fácil ou simplista, transpareçam esses posicionamentos, mas jamais de forma explícita ou imediata. Talvez por isso ambos tenham sido acusados de um certo caráter apolítico por diversos críticos, como se fossem meros situacionistas de fraca articulação política. Essa tese, é claro, não se sustenta quando analisamos com mais profundidade o corpus artístico de cada um deles: arrojado, pulsante e impregnado de questões e críticas sociais, psicológicas e (por que não dizer?) políticas. A bem da verdade, Miró e Tarkovski produziram arte instados pela realidade em que estavam inscritos: uma Europa do pós-guerra, de moral fortemente abalada e com um inconsciente coletivo artístico muito afetado pelos horrores engendrados pelos governantes do período. Dessa forma, é absolutamente inaceitável qualquer análise que omita suas trajetórias ou as esvazie de significado político, pintando-os meramente como artistas ensimesmados, que lidam somente com suas próprias neuroses. Muito pelo contrário, o diuturno contato com seus pares e correligionários os moldaram e causaram impactos profundos em suas obras, bem como o fez a situação de seus países. Para estabelecer essa comparação, elegemos duas obras contemporâneas entre si: o filme O Espelho de Tarkovski e o tríptico A Esperança de um Condenado à Morte de Miró, ambos de 1974. Nelas, nota-se um forte traço da memória constitutiva dos dois artistas, sem a qual não se poderia trabalhar com tanto afinco os temas abordados. No primeiro, isto se revela pelas passagens que recuperam a infância de Tarkovski de maneira a constituir um quebra-cabeça daquilo que, já na vida adulta, lhe foi mais pregnante; no segundo, a memória é acionada a partir do grande trabalho corporal e meditativo que exercia Miró, no fim de sua vida, a fim de chegar ao estado propício para enfim deixar seu gesto correr livre na tela, pois ele buscava entranhar todo o seu passado para, só então, simplesmente pintar. Ademais, essas obras apresentam forte teor político: Tarkovski emprega imagens de arquivo da Guerra Civil Espanhola e Miró pinta sobre um revolucionário, amigo seu, que é executado pela ditadura franquista. Nesse sentido, buscamos estabelecer uma relação entre o passado desses artistas e sua práxis artística, analisando como chegaram a esses momentos de aproximação temática, partindo de lugares tão distintos: a Catalunha e a Rússia. |
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| Bibliografia | AGAMBEN, Giorgio. “Notes on Gesture”, in Infancy and History: The Destruction of Experience. Londres/ Nova York: Verso, 1993. |