ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Acaso e experiência em Ex-isto |
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| Autor | Fernanda Eda Paz Leite |
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| Resumo Expandido | Como filmar o pensamento? Essa pergunta — que abre esta proposta — ganha corpo no filme "Ex-isto" (2009), de Cao Guimarães. Inspirado livremente no romance Catatau, de Paulo Leminski, o longa-metragem reinventa a figura de René Descartes em uma improvável visita ao Brasil do século XVII. No entanto, não se trata de uma adaptação literária convencional, e sim de uma obra que transforma a fabulação em acontecimento sensível, deslocando o pensamento da esfera racional para o campo do corpo, do delírio, do acaso. Na ausência de um roteiro prévio, o filme se estrutura a partir da improvisação do ator João Miguel, que recebeu como única orientação do diretor: “pense, pense, pense!” Esse dispositivo, essa abertura à errância e ao improviso dá origem a uma performance que encarna o pensamento como gesto e acontecimento. O pensamento, nesse contexto, é menos um conteúdo do que um modo de estar no mundo: instável, tropeçante, atravessado por forças sensoriais e materiais. A experiência do pensamento, portanto, não é internalizada ou abstrata, mas se dá na relação com o espaço, com os objetos, com o tempo e com os corpos. Há um deslocamento da razão cartesiana para uma filosofia encarnada, e a imagem não está a serviço da representação, mas da experimentação. Como propõe Jean-Louis Comolli, o cinema pode ser menos um espelho do mundo do que um campo de forças em que algo acontece, e é esse acontecimento que interessa em Ex-isto. A experiência é mobilizada no sentido benjaminiano e agambeniano do termo: escapa à codificação, se dá no corpo e não necessariamente se converte em discurso. Em Ex-isto, a experiência se apresenta como errância, como deambulação de um corpo-pensamento em constante transformação. A performance do ator, a relação com os espaços urbanos e naturais, os sons ambientes e a fragmentação da linguagem verbal contribuem para produzir essa experiência sensorial e aberta à indeterminação. O filme ainda tensiona os limites entre ficção e documentário ao registrar reações espontâneas de passantes e inserir elementos da cidade que interferem diretamente na performance. Essa contaminação remete ao hibridismo que atravessa a obra: literatura, cinema, filosofia, performance, documentário e videoarte se entrelaçam para compor uma linguagem própria, difícil de categorizar. O que se constitui ali é uma experiência híbrida que mobiliza o sensível como forma de pensamento. A montagem fragmentária, os tempos dilatados e a atenção à materialidade dos sons e das imagens reforçam o caráter errático e não linear do filme. A própria linguagem cinematográfica parece ser contaminada por essa filosofia errante: planos longos, repetições, cortes abruptos e momentos de suspensão criam uma temporalidade expandida, mais próxima da duração do que da sucessão. Isso exige do espectador uma disposição para a deriva, para o estar junto com o filme no tempo da imagem. Ao propor um Descartes tropicalizado, Ex-isto não apenas subverte a dicotomia entre corpo e mente, mas reinventa a própria ideia de pensamento. Trata-se de um pensamento que não se traduz imediatamente em discurso, mas que se manifesta como vibração, sensação, afeto. Um pensamento que não se conclui, mas que permanece em aberto, como experiência estética e existencial. Assim, este trabalho investiga como Ex-isto mobiliza o acaso, a experiência e o hibridismo como operadores formais e sensíveis. Através da performance, da improvisação e da contaminação entre linguagens, o filme nos convida a pensar — não por meio de conceitos, mas por meio da imagem. Pensar, aqui, é ver, ouvir, tropeçar, errar. Pensar é estar em relação. |
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| Bibliografia | AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? São Paulo: Editora Unesp, 2009. |