ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | São todas Putas: fabulando o eu-nós através do filme Arrenego |
|
| Autor | FERNANDA CAPIBARIBE LEITE |
|
| Coautor | Naywá Moura Carvalho |
|
| Coautor | Juliana Gleymir Casanova da Silva |
|
| Resumo Expandido | Esse texto é tecido por um nós, composto por três subjetividades, que se torna também um eu. Nós-eu, interligados pelo atravessamento de Arrenego (2025, 76 min), documentário-fabulação. Cada qual em suas vivências, nos conectamos e nos distanciamos, a partir da interseção entre filme e sujeita. Escrevemos na relação orientadora-orientandes em confluência: três corpas LGBTQIAPN+. Nesse caminho, nos diferenciamos sem nominar a diferença, transfluindo pelas bordas que o filme nos apresenta. No feitiço que Arrenego lança, propomos também “enfeitiçar a língua” (DOS SANTOS, 2023, p.4) nesses escritos. No encontro, vemos essa produção audiovisual como uma contra-narrativa contra-colonial. Arrenego parte de escritos na forma de cartas, datados da época do Brasil colônia, que descrevem um suposto Sabá de mulheres, indígenas e negras escravizadas, em 1758, Oeiras, Piauí. É suposto porque o conhecemos apenas pelo arquivo colonial: as cartas do Padre Manuel, que descreve os rituais como pacto sexual com o demônio, e solicita à Coroa Portuguesa providências. Partindo desse registro inquisitorial, o filme escorre pelas brechas recriando a ancestralidade no agora, trazendo corpos do passado, (re)encenados pelas existências de corpos presentes. Dos relatos transcritos de Joana e Custódia, as então hereges do Sabá, o filme atualiza a história com o cotidiano da cidade de hoje. Desse histórico, temos apenas vestígios através do arquivo, que conta com o depoimentos das mulheres envolvidas “arrenegando” o poderio colonial e o domínio cristão sobre seus corpos. Arrenego nos devolve o Sabá espiralando o tempo (MARTINS, 2022), dissipando a névoa com o feitiço da fabulação, fílmica e crítica. Logo no início, em off, o diretor, Fernando Weller, pergunta: “qual o trecho que você vai ler?” Naywa então responde: “documento um”. E inicia: Ela, Cecília, chamava homem e nunca demônio, por respeito a tal homem e desprezo pelo verdadeiro deus. [...] Arrenego do batismo e do padre que me batizou. da madrinha e padrinho que me puseram a mão. Arrenego da confissão e dos padres que me confessam. Arrenego da comunhão que recebem e os que comungam. Nem ali creio que esteja o sujeito que dizem ser Deus. Nem eu creio na igreja, e arrenego dela e de todos que estão dentro dela. Arrenego do matrimônio e dos que o fizeram. Arrenego de toda a sua raça; isto é, parentela. Arrenego de todos os santos e de todas as santas, que todas foram putas. (Trecho do filme Arrenego, 2025) Esse relato, de Custódia, é lido no filme por Naywa, travesti de Oeiras, que atualiza o Sabá escancarando a demonização de seu corpo pela ciscolonialidade (VERGUEIRO, 2015). Ao tentar recuperar a história da Vênus Negra, Saidyia Hartman (2020) enuncia o vestígio de sua existência como o desastre do encontro com o poder, que deixa rastros insuficientes e encarcera essa Vênus às margens da (des)humanidade. Hartman questiona: como conhecer as estórias de pessoas subalternizadas pelo colonialismo, se a manutenção e reprodução dos arquivos se dá por quem silenciou e aniquilou em nome da “civilização”? O arquivo, nesse caso, é uma sentença de morte, um túmulo, uma exibição do corpo violado, um inventário de propriedade, um tratado médico sobre gonorréia, umas poucas linhas sobre a vida de uma prostituta, um asterisco na grande narrativa da História.(HARTMAN, 2020, p. 15) A autora propõe a fabulação crítica como um redesenho de vidas para além das histórias de desumanização e demonização. Proposta como método, é um gesto que transborda o arquivo, rearranjando elementos da história, preenchendo seus vazios com o que não foi escrito, mas cantado, gozado, encenado. Assim, a trama de Arrenego se estende para pensarmos a própria construção ciscolonial do Brasil e seus atravessamentos em nossas vidas, a partir do que o filme borra: o arquivo, o controle sobre os corpos; antes e agora. Como Bispo dos Santos (2023) compartilha, se o colonialismo é transporte em linha reta, propomos o movimento de começo. |
|
| Bibliografia | DA SILVA, Denise F. A dívida Impagável. São Paulo: Zahar, 2019. |