ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Protagonismo feminino (e feminista) de Vó na luta pela terra em Chão (Camila Freitas, 2019) |
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| Autor | LARISSA SHAYANNA FERREIRA COSTA |
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| Resumo Expandido | As imagens das Mulheres Sem Terra foram inscritas em documentários brasileiros desde as origens do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Elas também se fazem presentes nos registros que retratam a luta pela Reforma Agrária Popular, conceito elaborado por Bastos (2018), no país. Com limites e potencialidades, tais imagens acompanham, no tempo, a consolidação organizativa do MST como movimento social e a auto-organização das Sem Terra, que têm elaborado, a partir da teoria e da prática, o Feminismo Camponês Popular, discutido por Calaça (2021). Partimos aqui do filme Chão (Camila Freitas, 2019), direcionando nosso olhar para o protagonismo feminino e feminista, com foco nas aparições de Vó, como é chamada dona Natalina Cândida, militante aguerrida do MST. A partir do contexto do movimento e da produção do filme, podemos dizer que Chão complexifica a noção de gênero e desafia padrões de aparição das mulheres Sem Terra no cinema? Como argumenta Oliveira (2019), Chão, que acompanha a luta do MST em Goiás, especialmente no Acampamento Leonir Orback, revela, em sua forma fílmica, uma permeabilidade à estratégia e às pautas do movimento. De modo geral, em suas aparições, falas e mise-en-scènes, as Sem Terra impõem condições vinculadas à estratégia de luta do MST, cujas estruturas organizativas se modificaram ao longo dos anos no sentido de incorporar as mulheres, jovens e LGBTI+ em seus espaços de decisão. A opção do movimento pela paridade de gênero em todas as suas instâncias, por exemplo, é um elemento que impacta diretamente na construção histórica das mulheres como sujeitas Sem Terra, consequentemente, na forma como elas serão retratadas nas imagens (MESQUITA e COSTA, 2023). Chão parece fazer de Vó uma personagem que é porta-voz da esperança. Uma mulher velha, que carrega nas rugas de seu rosto as marcas do tempo, da vida e da luta árdua pela reforma agrária. Sem dramatizações ou idealizações e longe de impor uma lógica de mercado que circunda o “envelhecimento ativo”, tal como concebido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o filme retrata Vó preenchida de futuro, de vontade de viver e fazer acontecer, com a consciência de que a luta se dá a longo prazo, e que talvez sejam seus filhos e netos que colherão os frutos, como ela mesma disse em debate virtual promovido pelo Projeto Paradiso. É a dimensão da coletividade, que talvez diferencie o aparecimento de Vó da maioria das imagens das protagonistas velhas do cinema. É uma perspectiva que ultrapassa o indivíduo, localizando o envelhecimento no coletivo. No entanto, parece-nos que os feminismos, com todos os avanços nos debates e elaborações teórico-práticas sobre as vivências das mulheres - em sua diversidade -, de modo geral, pouco se preocupam com as mulheres velhas. A produção acadêmica que converge os temas feminismo e envelhecimento ainda é escassa, e a velhofobia é uma violência que se perpetua na sociedade capitalista e patriarcal, que ainda valoriza e incentiva a juventude, a magreza e a branquitude. Para Debert (2013), o desinteresse das feministas pela velhice poderia ser explicado pelo medo de envelhecer ou por certa repulsa ao corpo envelhecido, questões próprias do sexismo das sociedades de consumo. A obra de Camila parece romper com esse silêncio sem necessariamente colocar o tema em questão. É o corpo, a fala e a ação de Vó que nos permitem pensar que o envelhecimento não é algo homogêneo na sociedade e que pode ser visto como algo potente. Após uma sequência de ventania, na cena final, por exemplo, Vó é filmada, com a câmera fixa posicionada de frente a um pôr do sol, regando a horta que emerge verde e rompe com o vermelhidão da terra batida do cerrado goiano. Na nossa análise, Vó, com seu corpo, sua voz e sua presença, complexifica as questões de gênero e nos informa elementos próprios do Feminismo Camponês Popular. Enquanto o sonho do lote não se realiza, ela permanece cultivando a terra e a esperança de que a realidade, um dia, vai mudar. |
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| Bibliografia | BASTOS, Pablo. Desafios políticos e dialógicos ao projeto de Reforma Agrária Popular do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Revista Eptic. Vol. 20, nº 1, jan-abr. 2018. |