ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A Proliferação do devir: imagem, xamanismo e clínica |
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| Autor | Iulik Lomba de Farias |
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| Resumo Expandido | Nesta apresentação desejamos compartilhar os resultados da pesquisa de doutoramento A Proliferação do devir: imagem, xamanismo e clínica, a ser defendida em maio de 2025, no PPGCINE/UFF sob orientação de Cezar Migliorin. Nosso gesto será de olharmos para filmes indígenas e não-indígenas, inspirados pelas cosmologias ameríndias e seus regimes de xamanismo, que reconhecem a Imagem como um modo de existência agenciador de forças que fabrica uma (des)estabilização na “saúde” dos corpos e das vidas afetadas. Propomos, portanto, relacionarmos as imagens fílmicas e as imagens xamânicas Wajãpi, Kaiowá, Yanomami, Huni Kuin e etc, para pensarmos uma pragmática das imagens, dada a indiscernibilidade entre mundos humanos e não-humanos, que nos inspiram a pensar uma potência clínica das imagens que exaspera os sistemas autóctones de conhecimento. Se para o pensamento indígena, filosofia, mitologia e ciência nunca se dissociaram, é exatamente nessa não-desconexão que um novo regime político das imagens pode nos atravessar. Vejamos um breve mosaico das imagens convocadas pelas cosmologias ameríndias: os Huni Kuin convivem com os yuxim, seres-imagem invisíveis para a maioria dos humanos, causadores de variadas enfermidades e que devem ser exaustivamente combatidos pelos xamãs por procedimentos estéticos, (pg. 147 LAGROU 2018) - imagens invisíveis que desejam adoecer aos humanos, mas com quem, por outro lado, mantemos abertas relações, que devem ser estabilizadas esteticamente; já entre os xamãs Yanomami, por sua vez, é necessário “fazer descer” os xapiri, espíritos-imagem que ao dançarem no centro da aldeia contribuem para que os humanos não adoeçam, e mesmo que para a maior parte dos humanos tais “imagens” permaneçam invisíveis, uma espécie de irradiação emana dessas imagens-xapiri, ativando “mais” saúde sobre os corpos (KOPENAWA; ALBERT, 2010); e ainda, no outro extremo do continente, para os Navajo, as imagens, sejam elas oriundas do design dos tecidos ou de uma película cinematográfica, precisam ser feitas visíveis, pois sua visibilidade faz agir o hózhó, operador cosmológico da produção de bem-estar no mundo (GONÇALVES 2016). Essa modulação entre imagens visíveis e invisíveis passou a figurar como problema central de nosso empenho teórico e analítico durante a escrita da tese, nos convocando a manejar um gesto metodológico em duas direções: A) a não-correspondência entre imageticidade e visibilidade; e B) a indissociabilidade entre imagem e clínica-, triangulação que as práticas xamânicas colocavam em evidência, e que fornecia contornos para a hipótese de que haveria uma espécie de devir-feiticeiro nas imagens, que o xamanismo nos dá a ver, e que acreditamos também dizer respeito ao cinema. Mesmo que xamãs e cineastas se ocupem de imagens diferentes, eles compartilham das mesmas agendas: manejar, intensificar e potencializar as agências dessas imagens. Desse ponto de vista, as imagens operam como tecnologias de inferência na (des)estabilização da vida e da saúde dos corpos, o que produz uma montagem entre cinema e clínica que nos interessa; já que as imagens, vistas com as lentes ameríndias, são dotadas de afecções conectadas aos regimes de práticas que adoecem e curam; o que nos intui a dizer, que as imagens cinematográficas também estão encharcadas de uma certa feitiçaria, análoga à que agem os xamãs. Para tanto, traremos a leitura de teorias perspectivistas, etnografias e filmes, que nos parecem esboçar uma espécie de “feitiço” das imagens, que ativaria um devir-saúde nos corpos, nos mundos e nos territórios subjetivos passíveis de serem experimentados; e todo esse percurso será infiltrado por experiências práticas em grupos clínicos orientados pelo Kumã (Laboratório de Pesquisa em Imagem e Som/UFF) e pela Casa Jangada (Espaço Transdisciplinar de Trabalho Clínico/RJ), além de encontros da disciplina Linguagem Audiovisual, que ministramos de 2019 a 2025 no Magistério Indígena Guarani Mbya, na aldeia Sapukai em Angra dos Reis-RJ. |
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| Bibliografia | BRASIL, André. Ver por meio do invisível: o cinema como tradução xamânica. Revista Novos Estudos. v. 35.03. São Paulo, 2016. |