ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Studio Som Jolie em "Lopping" |
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| Autor | ANA CAROLINA ARAUJO ABREU |
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| Resumo Expandido | O artigo apresenta o percurso de criação de uma instalação sonora concebida como experiência sensorial expandida, atravessando os limites da escuta para se inscrever no corpo e no espaço. A proposta surgiu em sala de aula, provocada por leituras, conversas e poéticas partilhadas entre colegas. Nesse contexto, emergiram questionamentos sobre o lugar do corpo na pesquisa, os modos de apresentação da obra e a própria sala de aula como território artístico e sensorial. A instalação propôs uma escuta coletiva e imersiva, rompendo com formatos convencionais de fruição individualizada. O som, neste caso, deveria ocupar o espaço, reverberar e instaurar-se como experiência comum. Em diálogo com Hélio Oiticica e sua noção de quase-cinema, buscou-se criar uma ambiência que evocasse uma imersão sonora: um cinema sem imagens, onde as vozes ganham protagonismo na escuridão, atravessando os corpos e acionando memórias. Ao apagar todas as luzes, a percepção se desloca, intensificando a escuta e convidando a uma presença sensível e reflexiva. O áudio utilizado na instalação trazia vozes coletadas em uma obra anterior, Replay, funcionando como um reenvio de experiências e afetos. O som, como a memória, move-se em ciclos: avança, retorna, rebobina. Cada escuta ativa uma nova camada de significação, e o próprio gesto de repetir transforma e ressignifica a experiência. A instalação propõe, assim, um espaço-tempo suspenso, onde o som não apenas documenta, mas reativa o vivido. O processo criativo também se constitui como campo de investigação. Iniciar a criação — ou simplesmente apertar o play diante de uma coleção de discos — é um ato envolto em hesitação e descoberta. Como propõe Bergson (1975), a intuição opera como força propulsora, permitindo que ideias se reorganizem e que o inesperado se manifeste. Nesse percurso, a obra se revela aos poucos, entre acasos, hesitações e reorganizações. O Studio Som Jolie, lugar de escuta, criação e memória, torna-se também arquivo afetivo. Mais que um acervo musical, é um espaço de entrelaçamentos entre imagens, objetos e sons, gerando narrativas híbridas. A pesquisa atual caminha para expandir esse olhar, compreendendo o arquivo como campo vivo e colaborativo. Novas experiências e histórias emergem quando o outro se inscreve no processo, ampliando as fronteiras do estúdio e ressignificando sua função artística e existencial. Oiticica aponta que a arte nasce da consciência de sua própria problemática, e não do aprisionamento em doutrinas — uma perspectiva que reverbera fortemente neste trabalho. Expandir a pesquisa é, antes de tudo, um gesto poético, que busca ampliar o modo de estar no mundo como artista e pesquisadora. Esse movimento convida a escutar outras vozes e reconhecer singularidades na relação entre objeto e linguagem. A arte, nesse contexto, torna-se meio de atravessamento de memórias, encontros e percepções. Construir uma poética é um desafio contínuo. Criar conexões a partir de um acervo musical pessoal e familiar implica tecer redes que se expandem com cada nova escuta e partilha. Pensar o processo criativo como sistema dinâmico abre espaço para o diálogo e para o acolhimento de outras presenças. Duchamp, ao propor a arte como colaboração, dissolve a separação entre artista e espectador, ecoando ideias da estética da recepção. A criação em rede transcende o gesto solitário e ativa a construção de uma experiência estética compartilhada. Replay. |
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| Bibliografia | ASSMANN, J. A mente cultural: escrita, memória e identidade nas culturas antigas. Vozes, 2011. BASBAUM, S. Sinestesia e percepção digital. TECCOGS, v. 03, p. 245, 2012. BASUALDO, C. Quasi-Cinema: Hélio Oiticica. Kunstverein, 2002. BERGSON, H. Matéria e memória. Martins Fontes, 1999. BOSI, E. O tempo vivo da memória. Ateliê Editorial, 2003. CIRILLO, J. Arquivos de artistas pessoais. UFES, 2019. DEWEY, J. Arte como experiência. Martins Fontes, 2010. DERRIDA, J. Mal de arquivo. Relume Dumará, 2001. DIAS, R. Nietzsche, vida como obra de arte. Civilização Brasileira, 2011. MIRANDA, D. In: Pós-fotografia, pós-cinema. Sesc, 2019. OITICICA, H. Cor, Tempo e Estrutura, c.1960. KASTRUP, V.; PASSOS, E. Fractal, v.25, n.2, 2013. SALLES, C. A. Gesto inacabado. Annablume, 1998. ______. Redes de criação artística. Horizonte, 2016. TRINDADE, R. Corpo sensível. Annablume, 2014. |