ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | A distância de um oceano atlântico: uma análise de A Deusa Negra |
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| Autor | Cintya Ferreira Mendes |
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| Resumo Expandido | “O primeiro filme afro-brasileiro”. Foi dessa forma que, em 1979, o Correio Braziliense anunciou o lançamento do longa-metragem A Deusa Negra (Ola Balogun, 1979), uma coprodução entre Brasil e Nigéria, dirigida pelo cineasta nigeriano Ola Balogun e estrelada por um elenco brasileiro, com nomes como Zózimo Bulbul, Jorge Coutinho, Sonia Santos e Léa Garcia. No filme, acompanhamos a jornada do nigeriano Babatunde, interpretado por Bulbul, que cumpre a promessa de seu bisavô: retornar ao Brasil em busca de seus familiares, que foram escravizados no país e não conseguiram voltar à terra natal. Apesar de seu pioneirismo como coprodução em um contexto de pan-africanismo e da interessante inversão da trajetória de retorno — não para a África ancestral, mas para um país cuja história se consolidou sob o regime escravocrata —, o filme não foi bem recebido na época e segue pouco discutido por pesquisadores e pelo público contemporâneo. No Brasil, o filme surgiu em meio a um regime militar que já durava mais de uma década e ao recente surgimento do Movimento Negro Unificado (MNU); na Nigéria, entre os protestos estudantis Ali Must Go e a implementação de uma nova constituição. Apesar desse cenário, Balogun opta por privilegiar o romance como símbolo da união entre os dois países. Na edição de 1º de junho de 1979 do Jornal do Brasil, o escritor e jornalista José Louzeiro tece a seguinte crítica ao filme: “Efeitos especiais precários, multidões na base de 50/100 figurantes, roteiro que termina sendo definitivamente ajustado na hora em que a câmera começa a rodar a primeira cena”. Embora sua crítica não seja infundada, é possível acrescentar que o filme segue uma estrutura narrativa clássica: o protagonista tem uma missão a cumprir, há um antagonista bem definido e um interesse romântico, e a trilha sonora é amplamente utilizada para preencher as cenas. Embora A Deusa Negra não se destaque pela inventividade ou pela experimentação estética, aspectos que poderiam ter compensado as limitações orçamentárias da produção, a obra apresenta múltiplos discursos, dentro e fora do filme, que demandam um olhar mais atento. A pesquisadora María Roof observa que “inicialmente as coproduções [entre países da América Latina e África] foram concebidas como modelos para o futuro, mas, em vez disso, acabaram se tornando exceções” (2004, p.252). Para além da particularidade do caso, o longa-metragem tampouco ocupa lugar de destaque nas filmografias de Balogun e dos atores brasileiros. Frequentemente, A Deusa Negra é mencionada como uma espécie de desvio — tanto na carreira do diretor, que transitou entre diferentes gêneros e idiomas, quanto na dos atores, que participaram de filmes mais emblemáticos e que se alinhavam melhor aos ideais do cinema brasileiro da época. Ainda assim, em uma entrevista ao Jornal do Brasil, Jorge Coutinho fez questão de enfatizar: “É um filme muito sério, não faz concessões. Até nas cenas de amor, a visão negra se sobressai.” (GROPILLO, 1979, p.4). O ator voltou a trabalhar com o diretor nigeriano no filme Cry Freedom (Ola Balogun, 1981). A Deusa Negra se propõe a evidenciar conexões e diferenças entre Brasil e Nigéria. As semelhanças se manifestam, sobretudo, na dimensão espiritual, enquanto a nacionalidade do protagonista permite desnaturalizar a organização social brasileira: a babá vestindo branco, o candomblé restrito a espaços periféricos e a própria descoberta do que é uma favela. No entanto, é no jogo das perspectivas que se criam distâncias incontornáveis: o tráfico transatlântico de escravizados e uma falsa simetria entre nigerianos e brancos europeus. A partir da análise do longa-metragem, de jornais da época e da comparação com o roteiro, investigaremos os embates que são colocados em cena e os possíveis motivos para o relativo esquecimento da obra. |
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| Bibliografia | BAMBA, Mahomed. O Cinema na África: dos contos ancestrais às mistificações cinematográficas. In: Andréa França; Denilson Lopes. (Org.). Cinema, Globalização e Interculturalidade. Santa Catarina: Argos - Editora da Unochapecó, 2010. p. 267-280. |