ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Uma poética da crueldade: O horror como poesia no cinema experimental da Belair de Júlio Bressane |
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| Autor | Samuel Carvalho Lima Silva |
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| Resumo Expandido | A presente pesquisa tem como objetivo discorrer sobre o cinema de horror e suas características em torno do medo, do abjeto e do imoral como recursos estético-narrativos fundamentais para o estabelecimento da gestualidade poética e potência experimental de Júlio Bressane enquanto diretor na Belair Filmes, produtora que, em sua breve existência de seis meses, realizou seis filmes completos e um não finalizado de forma independente dos meios oficiais de realização cinematográfica, colaborativa entre os artistas envolvidos nos projetos e produção horizontalizada na criação. O caráter de cinema de guerrilha da Belair permitiu que Bressane incorporasse a suas produções, enquanto diretor da produtora, uma estética predominantemente marcada pelo cinema de gênero como pilar de subversão da linguagem narrativa-representativa do cinema hegemônico. Ainda comprometido com a experiência de choque pela qual ficou reconhecido em seus filmes no início de sua carreira, em especial “O Anjo Nasceu” e “Matou a Família e Foi ao Cinema”, Bressane amplifica o experimentalismo antropofágico de seu cinema no microcomunitarismo artístico da Belair Filmes, com temáticas que utilizam a violência, o horror, o abjeto e a avacalhação grotesca como fio condutor lógico da suas obras, sem se prender a uma linearidade narratológica. Através de sua conduta transgressora que buscava provocar um rompimento com a estética normativa ao rejeitar as normas da linguagem narrativa-representativa, Júlio Bressane instituiu em suas produções enquanto diretor uma linguagem poética de confronto e violência a partir da imagem e da forma. Inspirado primordialmente nos filmes de terror brasileiro da época e das chanchadas do cinema clássico que utilizavam o sobrenatural e o cômico como inspiração direta às obras desse período, Bressane realizou três filmes calcados nessa proposição estética e poética: A Família do Barulho, uma comédia de humor sombrio que toma como ponto de partida a implosão dos conceitos clássicos de família tradicional, cuja representação da poética da crueldade parte da experiência do horror como arte performática conceitual; Barão Olavo, o Horrível, filme de terror que tem como inspiração principal os filmes de José Mojica Marins e o Zé do Caixão como referência para desenvolver o seu experimentalismo em torno do folk horror e os filmes populares de terror do cinema brasileiro; e Cuidado Madame, filme trash de serial killers, onde por meio da violência gráfica e do gore, Bressane põe em tensão questões sobre classe social e gênero no Brasil enquanto país subdesenvolvido. O trabalho de Bressane passeia por estilos diferentes de filmes de horror e reflete o caráter experimental em torno do cinema de gênero, filmes voltados para o apelo popular cujas principais manifestações artísticas da época, em especial o cinema novo, julgavam como obras destituídas de valor artístico e apolíticas. Dessa forma, através do seu estilo disjuntivo, narrativa fragmentada e linguagem poética, Bressane retoma a potencialidade radical da imagem violenta e abjeta a fim de estabelecer novas perspectivas em torno do cinema de horror no cenário cinematográfico brasileiro como arte política e confrontadora. Para além de uma questão temática, o diretor apoia-se em estruturas de agressão, conforme estabelecido por Noel Burch, cuja violência se estabelece entre o espectador e a tela, por meio de elementos perturbadores na montagem, mise-en-scène e desnaturalização da cena. Apoiado no que Ismail Xavier denomina como um cinema da crueldade no livro Alegorias do Subdesenvolvimento, procuraremos identificar nesses filmes onde o horror constitui uma poética da crueldade, gestualidade desenvolvida por Bressane em seus filmes, cuja características podem ser compreendidas a partir do experimentalismo e do cinema de poesia, com base nas postulações teóricas de Maya Deren, Jairo Ferreira e Pier Paolo Pasolini. |
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| Bibliografia | BURCH, Noel. Práxis do cinema. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2006. |