ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Origens do disparo fotográfico: entre os limites da reescrita e as possibilidades de novas poéticas |
|
| Autor | Natália Jardanovski |
|
| Coautor | Gabriel Felgueiras Corrêa Papaléo Pinto |
|
| Resumo Expandido | Com o objetivo de discutir as possibilidades e os limites do cinema, da fotografia e do arquivo em seus usos, origens e ressignificações, colocaremos em diálogo duas obras audiovisuais de duas artistas e teóricas que muito contribuem para esse debate. Un-Documented, de Ariella Azoulay e Fordlandia Malaise, de Susana de Sousa Dias, propõem formas distintas de encarar imagens forjadas em suas origens por mecanismos imperiais. Em A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica, além de inaugurar uma tradição de pensamento sobre as tecnologias de reprodução de obras de arte e se debruçar sobre a perda da “aura” que acontece nesse processo, Walter Benjamin também aponta para a possibilidade de manipulação das imagens no contexto moderno de reprodutibilidade e massificação. Na esteira de seu pensamento, muitos importantes teóricos como Susan Sontag, Roland Barthes e John Berger também abordaram a fotografia como campo de disputa política e estética, longe de ser uma representação fiel e neutra da realidade. Paralelamente a essa tradição, outro campo passou a se desenvolver de modo complementar ao pensamento benjaminiano, principalmente nas últimas décadas. Considerar que as práticas fotográficas não são neutras é ponto de partida para estudos decoloniais contemporâneos que as consideram intrinsecamente ligadas a um sistema de poder imperialista. Autores como Frantz Fanon, Edward Said e Achille Mbembe vão argumentar que a identidade dos colonizados é construída através da ótica do colonizador com o auxílio de ferramentas que reforçam certos estereótipos, como seria o caso da fotografia. São dessas fontes que bebe Azoulay em História potencial: desaprender o imperialismo. Ao se referir à câmera fotográfica como “arma do opressor”, ela se alinha a uma corrente de pensamento que vê a fotografia como dispositivo de dominação e é na narrativa de suas origens que ela vai buscar os argumentos que sustentam sua tese. Azoulay não apenas coloca as imagens como campo de disputa, mas o próprio aparato e seus mitos de criação. Não se trata apenas de analisar o uso que é feito hoje das imagens, mas também de entender a fotografia como um instrumento que nasceu a serviço do poder imperial. Tais reflexões sobre a relação intrínseca entre regimes opressivos de poder e as imagens e aparatos fotográficos é tema também da obra da cineasta Susana de Sousa Dias. Também dentro de uma tradição benjaminiana, Dias faz uso do conceito de “história a contrapelo” e propõe um movimento de escavação do passado por uma ótica que não o trata como fato objetivo. Para além de publicar artigos e conceder entrevistas em que aborda diretamente a herança imperial das imagens, a cineasta coloca a questão em evidência em seus filmes, seja reenquadrando imagens de arquivo notadamente usadas por regimes de poder, seja utilizando os aparatos audiovisuais de forma crítica, sempre colocando em destaque e conflito seus mecanismos criados como forma de dominação. Há, porém, diferenças nos gestos das duas pensadoras. Ainda que fale de um potencial e proponha ressignificações para a fotografia em sua obra, a israelense é reticente ao considerar usos possíveis dos aparatos fotográficos que fujam de sua idealização de opressão e reitera a todo momento o contexto violento em que foram criados. Já a portuguesa, em seus filmes, toma outro rumo, e, mesmo reconhecendo o histórico dos dispositivos tecnológicos que utiliza, procura maneiras de driblar sua natureza de controle e repressão, propondo novos usos não pensados em sua origem. Quais as diferenças de pensamento que fazem a postura de ambas serem distintas? E que consequências têm cada uma dessas abordagens? É possível utilizar tecnologias tão sucumbidas pelos seus usos por governos genocidas de outras formas, propondo novas poéticas? Nosso trabalho pretende responder a essas e outras questões, colocando os escritos e práticas das duas em diálogo, atentando-se tanto para os conflitos quanto para as consonâncias entre eles. |
|
| Bibliografia | AZOULAY, Ariella. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo, Ubu, 2024. |