ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | O medo como denúncia: tabus, horror e racialidade no cinema de Jordan Peele e Nia DaCosta |
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| Autor | Luccas Pinheiro Lopes |
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| Resumo Expandido | Este trabalho tem como objetivo refletir sobre como os tabus sociais constroem medos e, a partir desses medos, como o horror funciona para confrontá-los ou conservá-los. Em especial, busca-se compreender como a racialidade, enquanto tabu, também se converte em objeto de temor. Nesse sentido, analisa-se como o horror pode mobilizar esses medos, e como cineastas como Jordan Peele e Nia DaCosta, objetos de estudo do meu projeto de mestrado, utilizam a lente da racialidade como elemento central para a produção de medo e desconforto, subvertendo estereótipos e denunciando violências históricas. As definições de tabu são diversas, mas convergem em direção à um conceito importante para esta análise. Segundo o dicionário Michaelis, tabu pode ser entendido como “assunto sobre o qual não se pode falar devido aos valores sociais ou culturais”, ou, “pessoa da qual se deve manter distância, por motivos impostos pelos bons costumes”, além de, “restrição a certos comportamentos, vestuário, alimentos, formas de se expressar etc”. Ao conectar esses significados com os conceitos sobre horror e racialidade, é possível entender como os diretores selecionados entendem quais são esses tabus e como eles tentam reverter sua lógica a partir de seus filmes. Como explica Kilomba (2019), o racismo não apenas marginaliza os corpos negros, mas também impõe ao branco a necessidade de evitar comportamentos que poderiam associá-lo a essa identidade marginalizada. Assim, “a pessoa negra se torna um depósito para os medos e fantasias brancas sobre agressão e sexualidade” (Kilomba, p. 78, 2019). O tabu em sua essência é algo que deve ser evitado, então, a partir do que já foi apresentado sobre o tema é possível pensar no que Gordon (2023) argumenta: “A ironia de evitar um assunto é que isso acaba por torná-lo ainda mais presente...O esforço exigido para evitar o que está plenamente à vista requer identificá-lo enquanto se tenta habilmente livrar-se dele. A motivação aqui é o desconforto, talvez o temor, que o tema negado ou evitado estimula. Em alguns casos, o que a pessoa teme é o que pode aprender sobre si mesma, a imagem de si que pode emergir” (Gordon, p. 37, 2023) Além disso, Nina Auerbach (1995) pensa como monstros clássicos tal qual Drácula e Carmilla representam os tabus de suas épocas, como a homossexualidade, a libertinagem feminina e o medo do estrangeiro. Nesse sentido, o horror desde seu início na literatura reflete ansiedades culturais, usando a figura do monstro para tornar visível aquilo que a sociedade tenta manter escondido. A branquitude ao tentar fugir de pessoas não-brancas, frequentemente ignora que pode estar fugindo de si mesma, recusando-se a perceber suas falhas e contradições. Xenofobia, racismo e outras formas de intolerância revelam mais sobre o opressor do que sobre o oprimido. Como aponta Coleman (2019), quando o branco norte-americano criou bairros segregados racialmente eliminou a possibilidade de culpar o negro por seus medos, e assim criou o medo do seu próprio vizinho. O horror negro resgata e ressignifica narrativas antes dominadas pelo olhar branco, transformando monstros em símbolos de memória, trauma e sobrevivência. Segundo Bento (2022), as sociedades escolhem o que querem lembrar e o que querem esquecer, por isso, o óbvio precisa ser relembrado para que as histórias de povos marginalizados não caiam no esquecimento sistemático. Peele e DaCosta demonstram que o horror pode ser uma ferramenta potente para expor tabus raciais e reescrever narrativas históricas. Kilomba (2019) afirma que nomear as violências raciais é essencial para combatê-las, os filmes desses diretores fazem exatamente isso ao transformar o horror em uma plataforma de resistência e questionamento. Corra! (2017), Nós (2019), A Lenda de Candyman (2021) e Não! Não Olhe (2022) funcionam como espaços de enfrentamento do tabu racial, deslocando o olhar do medo do "outro" para a estrutura social que o marginaliza. |
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| Bibliografia | AUERBACH, Nina. Our Vampires, Ourselves. Chicago: The University of Chicago Press, 1995. |