ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | O Pesadelo no Cinema de Fellini |
|
| Autor | Guilherme Perussolo |
|
| Resumo Expandido | Federico Fellini criou um universo no qual realidade e fantasia possuem fronteiras dissolvidas, com sonhos e pesadelos exercendo papel fundamental. O objetivo desta proposta é o de perscrutar como o pesadelo surge como um recurso expressivo poderoso na filmografia do cineasta a partir de três figuras expressivas, refletindo angústias pessoais, dilemas existenciais e críticas sociais, desembocando em atitudes distintas. Em 8½, o protagonista é atormentado por um fluxo incessante de memórias e fantasias que invadem sua realidade. O pesadelo mais marcante ocorre logo na abertura do filme: Guido está preso dentro de um carro em um congestionamento sufocante. Subitamente, ele escapa flutuando pelo céu. Essa sequência pode ser vista como uma simbologia de sua busca por liberdade e criatividade, ao mesmo tempo em que ilustra seu aprisionamento. Ao longo do filme, essa lógica de pesadelo permeia toda a narrativa, mostrando Guido confrontado por seus medos — desde sua infância repressiva até seus conflitos amorosos e profissionais. A primeira figura que resulta do embate de Fellini com seus pesadelos é a resignação. Guido não encontra uma resolução clara para seus dilemas, e sua única resposta é aceitar o caos da vida como parte essencial da existência. O final do filme, com a dança circular de todos os personagens de sua vida, sugere uma resignação ao absurdo, sem triunfalismo ou desesperança absoluta. Satyricon, por sua vez, é uma viagem alucinante por uma Roma decadente e fragmentada. A estrutura do filme é deliberadamente desconexa, contribuindo para um efeito de sonho febril e perturbador. O protagonista é constantemente deslocado de um ambiente ilógico para outro, sem nunca conseguir controlar sua própria jornada. O tempo e o espaço são mutáveis, os personagens são grotescos, e a sensação de impermanência domina tudo. Um dos momentos mais angustiantes ocorre quando Encolpius e seus companheiros são vendidos como escravos em um banquete, em um ritual cruel. Isso intensifica a ideia de um universo que escapa ao controle do protagonista. O resultado desse pesadelo é o descontrole, segunda figura expressiva em Fellini: Encolpius é tragado por um mundo sem sentido, onde a existência é fragmentada e sem propósito. Diferente de Guido em 8½, que ao menos encontra um tipo de aceitação do caos, ele é jogado de um destino a outro sem encontrar qualquer redenção. O filme termina abruptamente reforçando a sensação de que tudo é efêmero e fora de nosso controle. Em Cidade das Mulheres, Fellini leva o protagonista a uma jornada pelos medos e desejos masculinos. O filme inicia com Snàporaz seguindo uma mulher misteriosa até um hotel, onde se vê cercado por um congresso feminista. A partir desse momento, ele é engolido por um mundo labiríntico onde todas as suas concepções sobre o gênero oposto são questionadas e ridicularizadas. Vê-se aprisionado em um tribunal ameaçador, sendo julgado por suas falhas enquanto homem. Como em 8½, o protagonista tenta escapar, mas é constantemente puxado de volta ao mundo que o desafia. Sua identidade vai, aos poucos, se dissolvendo. O resultado desse confronto com o pesadelo é o cinismo, terceira figura expressiva felliniana: diferente de Guido, que atinge um tipo de aceitação do caos, ou de Encolpius, que sucumbe à desordem, Snàporaz emerge de sua experiência com uma expressão cínica, de desprezo e mesmo de incredulidade frente ao que lhe atinge. Assim, o pesadelo é uma manifestação de crises interiores e sociais vistas em ao menos três figuras expressivas nos filmes de Fellini. Em 8½, ele reflete a dúvida existencial do artista, levando-o à resignação cética. Em Satyricon, o pesadelo expressa a decadência, culminando no descontrole. E em Cidade das Mulheres, o pesadelo escancara os medos masculinos diante da emancipação feminina, resultando em cinismo. Assim, os pesadelos de Fellini não apenas aprofundam a psique de seus personagens, mas também capturam as angústias de seu criador e do próprio ser humano. |
|
| Bibliografia | 8½. Dir. Federico Fellini. Prod. Angelo Rizzoli. Itália: Cineriz, 1963. |