ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Filtros, gargalos, janelas - modos de ver e dar a ver em tempos de streaming |
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| Autor | Carla Ludmila Maia Martins |
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| Resumo Expandido | É fato notório haver um gargalo histórico entre o número de produções realizadas no Brasil e o número de filmes que são efetivamente vistos, seja em festivais, mostras ou sessões comerciais de cinema. Considerando-se a principal janela de exibição de filmes independentes - os festivais, mostras e sessões especiais - chegam a ser cinco, dez, às vezes vinte vezes mais filmes inscritos do que o número que efetivamente pode ser selecionado para exibição, dado o limite de tempo em eventos presenciais. Cabe fazer escolhas, estabelecer critérios. Nesse processo, reside o risco de ocorrer apagamentos históricos, o que Amaranta Cesar acertadamente denominou de “negligências críticas”, em especial em relação a perspectivas femininas de cinema, que existem “em função de estruturas historicamente localizadas”. O gargalo é estreito e desigualmente acessível. O campo da exibição em streaming, com sua temporalidade diversa, não mais limitada pelo tempo do aqui-agora, sem aura, pode provocar mudanças estruturais no processo de seleção ou de “agenciamento de visibilidades”, para seguir com Cesar e lembrar Benjamin. Por um lado, na internet é possível atuar menos como gargalo e mais como janela - em lugar de lógica alternativa, “este ou aquele filme”, a internet permite a lógica aditiva, “este e aquele filme”, dada a maior capacidade de armazenar e exibir conteúdos, sem as pressões do tempo. Por outro lado, acompanham essas mudanças estruturais nos modos de ofertas outras variações igualmente definidoras da experiência de ver e dar a ver em tempos de streaming. Buscamos explorar dois aspectos centrais para esse debate: 1) a forma de espectatorialidade e 2) a distribuição de poderes no mercado exibidor. No que diz respeito ao primeiro aspecto, é preciso pensar como os conteúdos ofertados na internet, seja nas plataformas SVOD ou TVOD, seja nas versões online de mostras de cinema e festivais, acabam por configurar uma demanda quase infinita de conteúdos, como grandes cardápios, pelos quais deslizamos o olhar em busca de algo para assistir, com graus variados de indecisão. O gargalo ou filtro, no fim das contas, não deixa de existir, mas passa a ser deslocado do programador/curador para o espectador/usuário, que detém o poder de selecionar o que ser visto. No streaming, é preciso lidar com a dura verdade de que um filme estar disponível na plataforma não é garantia de que ele será, efetivamente, visto. E mesmo quando visto, as condições de espectatorialidade serão tão distintas que alguns poderão questionar se ainda pode se denominar "cinema” a experiência de assistir a um filme sozinho, nas diminutas telas de um laptop ou de um celular, em sala nem sempre escura e com o isolamento acústico insuficiente para uma experiência imersiva. O que é feito do espectador, alvo último de todo e qualquer evento de exibição cinematográfica, em tempos de streaming? Sem a escuridão do cinema, será que ainda sonha? Sente medo? Será que vibra, a ponto de sentir o chamado para ação, tão necessário para a transformação - subjetiva, sociocultural - que se espera do contato com os filmes? O fenômeno da hiperestesia - em que visão e audição são aguçados em detrimento dos outros três sentidos, anestesiados durante a duração do filme - será que deixa de acontecer em função, por exemplo, da participação tátil na experiência, o toque na tela ou no teclado que interrompe a história, faz corte na duração? Propomos refletir sobre possíveis mudanças nos modos de espectatorialidade para pensar qual papel os festivais e mostras, presenciais e online, teriam a cumprir na arena cultural e política em tempos de streaming. Para além disso, buscamos retomar alguns dados estatísticos para problematizar até que ponto se pode defender a hipótese de que a internet, por seu potencial de ser mais janela e menos gargalo ou filtro, seria mais democrática, ou representaria uma distribuição mais horizontalizada dos poderes e das visibilidades, face a hegemonia das grandes plataformas. |
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| Bibliografia | AMARANTA, Cesar; LUDERMIR, Chico. "Uma imagem vibra nos sujeitos, libera energia de luta". Entrevista. Revista Continente. Disponível em: https://revistacontinente.com.br/secoes/entrevista/-uma-imagem-vibra-nos-sujeitos--libera-energia-de-luta- |