ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Efeito-cinema infratênue: do estático ao movimento em 2 ensaios fotográficos de Rineke Dijkstra |
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| Autor | Maria Angélica Del Nery |
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| Resumo Expandido | Os ensaios fotográficos Almerisa (1994-) e Oliver (2000-03), de Rineke Dijkstra, têm como fundamento uma mesma estratégia: fotografar uma pessoa no curso de anos, na mesma pose e nas mesmas condições gerais de enquadramento, luz e ambiência. Com a permanência da forma no correr do tempo nos aproximamos da pessoa retratada em um jogo de repetição e diferença, e no vai-e-vem do olhar alcançamos visualizar as mudanças que o tempo e os acontecimentos lhe imprimiram. Mas seria só o campo visível da imagem que está em jogo nesses ensaios? O que dizer do espaço vazio entre as fotografias? Em minha pesquisa de doutorado (Travessia infratênue: efeitos de imagens entre a imobilidade e a mobilidade) analisei o ensaio fotográfico Almerisa como uma obra capaz de propiciar uma experiência cinematográfica. A presente proposta consiste em ampliar aquele estudo para incluir a análise do ensaio fotográfico Oliver, construído a partir da mesma operação poética. Em 1994, Rineke Dijkstra fotografou Almerisa Sehric aos 5 anos em um asilo para refugiados da Bósnia. Dois anos depois, Dijkstra procurou a menina e fez um segundo retrato em que repetia a mesma cena: Almerisa no centro do quadro, sentada em uma cadeira, em um espaço esvaziado, com uma luz neutra. De 1994 até 2018 o ensaio Almerisa compreende 16 retratos e permanece aberto ao futuro. O ensaio Oliver (2000-03) é composto por sete retratos de Oliver Silva. No primeiro retrato vemos Oliver no dia que ingressa na Legião Estrangeira das Forças Armadas Francesas, com 17 anos; no segundo retrato, feito no mesmo dia, ele está com o cabelo raspado e veste uma farda; no terceiro retrato o vemos em uniforme de combate com um ferimento no rosto; e nos próximos quatro retratos acompanhamos sua transformação pessoal, onde os uniformes, as patentes e seu semblante nos dizem do tempo vivido. Quantas temporalidades cada ensaio fotográfico propicia? Diante das imagens nosso olhar vê passados e futuros em diálogo, vemos o “isto foi” (Barthes) faceando o futuro "aninhado" nas imagens (Benjamin), presenciamos o corte no contínuo (Dubois) e pensamos sobre a espera do fotógrafo (Lissovsky), mas, além disso, vemos, também, se restituir a duração. No espaço vazio, na elipse entre imagens, lá onde aconteceu o movimento contínuo da vida, encontramos a duração bergsoniana. A fruição dessas obras abarca o campo e o fora-de-campo das imagens, o visível e o espaço vazio onde o visível se expande e para onde migra nossa imaginação. Jacques Aumont, ao tratar das imagens que se apresentam em série, compreende a articulação entre elas como uma atividade mental do espectador, um efeito cognitivo quase inconsciente (2004, p. 95). Hans Belting afirma a interação contínua entre a imagem (representação externa), o meio (vetor, agente ou dispositivo) e o corpo que a percebe (representação interna) (2014, p.13-14). Nos ensaios Almerisa e Oliver é na imagem mental que acontece o trânsito entre a fotografia e o cinema. Para abordar o deslizamento entre o movimento e o estático em filmes, vídeos, fotografias e instalações, Raymond Bellour (1997, 1999) e Philippe Dubois (1999) propuseram os termos efeito-cinema, efeito-filme, efeito-foto, efeito-montagem. Para Bellour é "entre as imagens que cada vez mais acontecem passagens, contaminações de seres e de regimes" (1999, p. 10, tradução nossa). Para Philippe Dubois, o efeito-filme é tanto uma questão da imagem quanto do dispositivo, de percepção quanto de intelecção, de sensação quanto de emoção (2021, p.111). Os ensaios Almerisa e Oliver provocam a percepção de um efeito-cinema de qualidade infratênue. Recorro ao termo inframince, inventado por Duchamp, para dizer da travessia sutil, quase imperceptível, que aflora na tensão entre imobilidade e mobilidade, entre instante e duração, visibilidade e invisibilidade, presença e ausência. Imagem e miragem coexistindo como possibilidade (apenas) em uma produção poética que envolve o visível, o espaço vazio, memória e invenção. |
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| Bibliografia | AUMONT, Jacques. O olho interminável. São Paulo: Cosac Naify, 2004. |