ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Então, a imagem-espaço? |
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| Autor | Luiz Carlos Oliveira Junior |
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| Resumo Expandido | A lógica cultural do capitalismo tardio é pautada pela fragmentação do tempo em uma série de presentes perpétuos (JAMESON, 1997). O tempo como sucessão cronológica se trocou pelo regime de simultaneidade requerido pela era digital e pelo “capitalismo 24/7” (CRARY, 2016). Tal fenômeno aponta para uma maneira de ser no mundo que, de acordo com Elsaesser (2015, p. 56), inclui a ubiquidade – a propriedade de estar em todo lugar ao mesmo tempo – como uma espécie de desafio ontológico: uma ontologia pós-indexical e pós-epistemológica que, em vez de sentenciar o fim de noções como materialidade e referencialidade, prefere repensá-las no contexto atual, “após meio século de lamentações pela perda do real” e pelo triunfo dos simulacros. Daí a hipótese de Elsaesser acerca de um “novo realismo” que se baseia na ubiquidade e, portanto, “implica uma espacialização do tempo”. Se há uma “volta ontológica” na teoria do cinema, então, ela está vinculada à “virada espacial”, ou à percepção de que a existência humana não pode ser explicada satisfatoriamente sem uma reconceituação das categorias relativas à componente espacial da vida social (LÖW, 2013). Assim, o espaço, no cinema contemporâneo, não pode ser pensado apenas como um contêiner do tempo, mas como eixo central de suas operações estéticas, temáticas e conceituais. Alguns dos filmes de maior interesse das últimas décadas são obras inteiramente concebidas como uma orquestração espacial de eventos e, mais profundamente, como uma “reorganização do tempo como espaço” (CUBITT, 2004). Filmes como "Feitiço do tempo" (Harold Ramis, 1993), "Olhos de serpente" (Brian De Palma, 1998) e "Elefante" (Gus Van Sant, 2003) convertem o tempo em uma estrutura que o espacializa, ou que transforma sua sequencialidade numa espécie de cartografia dos minutos e segundos. O tempo se torna um mapa de eventos, uma figura espacial sobre a qual o narrador executa movimentos exploratórios, podendo escolher, a cada lance, o ponto em que quer começar, parar, voltar, avançar, recomeçar – procedimentos exponenciados pelos videogames e pelas narrativas de multiverso hoje em voga, mas prefigurados, no fundo, por práticas do cinema experimental (Michael Snow, sobretudo) e da videoarte. Também em filmes como "Andarilho" (Cao Guimarães, 2007), "Fantasma" (Lisandro Alonso, 2006), "Jauja" (idem, 2014) e "Elon não acredita na morte" (Ricardo Alves Jr., 2016), o principal material expressivo da mise en scène é o espaço em si mesmo, que “não para de se ‘dobrar’ e ‘desdobrar’ em torno dos protagonistas, segundo um movimento diastólico ou sistólico” (GAUDIN, 2014). Podemos especular que, caso estivesse vivo, Deleuze completaria a investigação iniciada com "A imagem-movimento" e A "imagem-tempo" escrevendo um terceiro livro que se chamaria “A imagem-espaço”: “Ora, depois da ‘imagem-tempo’, talvez seja hoje útil refletir sobre um cinema da ‘imagem-espaço’: um cinema que faria do espaço, a um só tempo, uma preocupação temática e filosófica primordial e um material essencial de sua própria composição” (ibid.). Trata-se de apreender o espaço cinematográfico não mais como um motivo estável representado pelo filme, mas como um fenômeno dinâmico, como “qualidade-potência” do cinema, inerente ao movimento das imagens. O paradigma da imagem-espaço deve levar em conta também a inflação de telas na experiência cotidiana, que faz o cinema migrar da heterotopia para a “hipertopia” (CASETTI, 2015): não há mais a abertura de um “aqui” para um “outro lugar”, e sim uma pluralidade de “outros lugares” que chegam “aqui”, saturando o cotidiano por meio da infinidade de telas. O cinema já não nos pede para ir até ele, mas vem até nós onde quer que estejamos, fazendo do nosso quadro existencial um “hiper-espaço”. O objetivo desta comunicação é avançar em relação às reflexões dos autores citados e estabelecer parâmetros teóricos para se pensar uma nova idade da imagem, a que podemos chamar “imagem-espaço”. |
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| Bibliografia | CASETTI, Francesco. The Lumière Galaxy. New York: Columbia University Press, 2015. |