ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Super 8 em Tomada Única: Festivais com filmes montados no Ato de Filmar |
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| Autor | Rodrigo Santos Sousa |
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| Resumo Expandido | Tomada Única em Super 8: resistência estética e crítica ao dispositivo hegemônico Parte-se do princípio de que todo realizador tem o direito de escolher o formato com que deseja filmar — seja celular, Super 8, Alexa, Red, BlackMagic ou outras tecnologias. A defesa dessa liberdade é também uma resistência à homogeneização tecnológica e à limitação das possibilidades criativas. Cada formato implica uma linguagem própria, e apropriar-se dessas linguagens é essencial para reconfigurá-las segundo nossos contextos e modos de ver o mundo. A experiência com o Super 8 é singular: filmar com esse formato implica uma relação íntima entre corpo e câmera. Trata-se de um dispositivo próximo ao olho, e não no ombro ou nas mãos, o que altera o gesto e o olhar. Mesmo que se opte depois por tecnologias digitais, a vivência com o Super 8 deixa marcas estéticas e sensíveis duradouras. Não se trata aqui de um purismo nostálgico. A convivência com o digital é produtiva. A crítica está na forma como o digital se impôs como padrão técnico e simbólico, muitas vezes de modo excludente. Um exemplo é a construção do termo “fotografia analógica”, inexistente antes dos anos 2000. A imagem fotoquímica não é uma analogia, mas a própria inscrição da luz na matéria. Já o sensor digital, ao converter luz em dados binários, simula essa relação. A ascensão do digital nos anos 2000 coincidiu com a possibilidade de países do sul global avançarem na produção local de película. A rápida adesão ao digital, mesmo com qualidade inferior à época, se deu pela praticidade e compatibilidade com fluxos industriais. Porém, discute-se pouco o viés ideológico dessa mudança: arquivos digitais são rastreáveis; suportes fotoquímicos, não. A cadeia produtiva da película e das câmeras digitais permanece no hemisfério norte, enquanto o sul segue como consumidor dependente. Filmar em película exige planejamento: a limitação de tempo e custo impede o acúmulo de material e demanda uma abordagem mais consciente da imagem. Enquanto os stories produzem crônicas efêmeras do presente, a película evoca um tempo da memória, no qual cada registro é uma escolha deliberada. Surge então a pergunta: por que filmar em Super 8? E mais especificamente: por que filmar em Tomada Única? A técnica da Tomada Única, ao dispensar edição e pós-produção, desafia convenções narrativas e resgata uma prática mais espontânea e artesanal. Sua adoção por festivais internacionais e sua chegada ao Brasil revelam uma transformação estética no uso da película. Este estudo visa refletir essa trajetória, seus efeitos históricos, estéticos e políticos. Do ponto de vista teórico, a proposta dialoga com a noção de dispositivo cinematográfico formulada por Arlindo Machado. A tomada única remete ao cinema das origens, marcado por liberdade formal e improvisação. A padronização posterior — com projeção frontal, som sincronizado, espectador passivo — consolidou uma experiência homogênea. A tomada única subverte esse modelo, valorizando o processo em detrimento do produto final. Sem edição posterior e tendo que realizar o filme em ordem cronológica, o cineasta precisa coreografar cada movimento com precisão. Falhas e acidentes tornam-se parte da obra. A estética do grão, das cores instáveis e da textura da película contrasta com a suavidade do digital, criticando a normatização técnica da imagem contemporânea. Além disso, a tomada única aproxima o cinema das artes visuais, promovendo experiências fílmicas em espaços alternativos como galerias ou ambientes híbridos, intensificando a fruição sensorial e participativa. Trata-se, enfim, de uma forma de resistência simbólica à industrialização da imagem. Ao destacar o gesto, o erro e a temporalidade, a Tomada Única em Super 8 propõe uma outra forma de existir do cinema no mundo contemporâneo. |
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| Bibliografia | MACHADO, Arlindo. Cinema e arte contemporânea. São Paulo: Papirus, 2007. |