ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Explosão econômica, confinamento estético: os espaços de Dr. Fantástico (1964) |
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| Autor | Artur Renzo |
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| Resumo Expandido | Lançado em 1964, DR. FANTÁSTICO acertou em cheio os ânimos de um país ávido para expurgar a retórica e as ansiedades do macarthismo, e que tinha acabado de ver a possiblidade de uma guerra nuclear passar diante de seus olhos. O filme de Stanley Kubrick obteve um enorme sucesso de crítica e bilheteria, particularmente entre o público jovem das grandes cidades e regiões universitárias – atinando, portanto, inclusive com o recorte demográfico da onda de agitação política e cultural que culminaria em 1968. Essa constatação é ponto de partida para esta comunicação, que pretende investigar a construção espacial do filme em uma leitura que procura relacionar forma estética e processo social. Como esclarece JAMESON (1984, p. 181), uma das “condições de possibilidade” para o desencadeamento da nova dinâmica política e social dos anos 1960 foi o processo de fusão da AFL e do CIO, ocorrido em 1955, que “garantiu a expulsão dos comunistas do movimento operário estadunidense, consolidou o novo ‘contrato social’ antipolítico entre sindicatos e empresariado estadunidense e criou uma situação em que os privilégios da força de trabalho masculina e branca asseguraram-lhe precedência face às demandas dos trabalhadores negros, das mulheres e de outras minorias”. Esses dados históricos requalificam o elemento de claustrofobia de DR. FANTÁSTICO: um filme de 1964 que se passa inteiramente em três espaços militarmente fechados povoados quase exclusivamente por homens brancos das Forças Armadas – com uma exceção bastante reveladora. A contenção espaço-temporal cerrada é um dado formal estruturante: o ponto disparador da ação é dado logo na primeira cena, e o filme é organizado de cabo a rabo como uma grande montagem de ação paralela que intercala os acontecimentos nesses três espaços separados e incomunicáveis. A trama se desenrola, assim, como que num fôlego só, em tempo real (os marcadores diegéticos de tempo coincidem com a duração do filme). Se é consenso entre os comentadores que boa parte da originalidade do filme consiste na maneira pela qual ele articula organicamente três eixos temáticos aparentemente díspares – humor, sexualidade e guerra –, um olhar detido para a espacialidade do filme, contudo, revela um quarto eixo latente mas nem por isso menos onipresente: a sociedade de consumo do pós-guerra. A identificação de uma homologia estrutural entre o padrão insular da nova geografia suburbana do pós-guerra estadunidense e a estrutura monádica dos ambientes isolados nos quais se desenrola a ação de Dr. Fantástico, a um só tempo espaçosos e asfixiantes, é, assim, chave para a leitura aqui proposta. Conforme HARVEY (2012, p. 9), o enorme projeto de sistema rodoviário estadunidense, o modelo de urbanização implementado por Robert Moses e a promoção de uma rodada de consumo movido a crédito efetivamente resolveram um problema de sobreacumulação do pós-guerra. A forma de resolução dessa crise, no entanto, já prepara e fornece os termos da crise seguinte. É o que começa a ficar evidente no início dos anos 1960. De fato, a janela política aberta nesse período será lida por muitos autores nessa chave. Parece ter especial ressonância o fato de que, ao descrever, em outro lugar, essa “contradição cultural do capitalismo tardio”, JAMESON (2008, p. 373) recorra a uma metáfora explosiva: “o sistema de consumo estimula novas necessidades e novas demandas – muitas delas falsas ou espúrias, é claro – mas cuja dinâmica e pressão já não conseguem mais ser acomodadas no interior do sistema, cuja franca massa ameaça fazê-lo explodir.” O paralelo parece fértil não só por reforçar as conhecidas relações entre economia e guerra no complexo industrial-militar, mas sobretudo por revelar a cegueira moral da Era Nuclear a partir dos vasos comunicantes entre indústria cultural e militarização do cotidiano; e trazer à tona cumplicidade silenciosa entre o ciclo de prosperidade do pós-guerra e o horizonte destrutivo da Bomba Atômica. |
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| Bibliografia | BRODERICK, Mick. Reconstructing Strangelove: Inside Stanley Kubrick’s Nightmare Comedy. Nova York, Columbia University Press, 2017. |