ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Fronteiras e suas imagens-ruínas: Los Silencios e o cinema especulativo latino-americano |
|
| Autor | Ana Clara Silva Mattoso |
|
| Resumo Expandido | Existe uma palavra na língua yanomami chamada urihi a, que, entre as possíveis aproximações e traduções, poderia ser relacionada a um entendimento de “natureza” que não se limita a uma área geográfica, tampouco existe apenas como oposição à urbe, exterior à sociedade ou ao mundo habitado por humanos (Kopenawa & Albert, 2023). Para os yanomami, diferentemente da compreensão ocidental antropocêntrica que costuma situar a natureza como um campo de recursos apto a ser controlado, urihi a é também “terra-floresta”. Um aglomerado multiespécies polifônico (Tsing, 2019) que aponta para a vasta superfície vegetal que cobre o solo da floresta, assim como denota uma noção de criação de mundo local, com seus modos específicos de habitar e coexistir às fronteiras sempre móveis de uma região (Touam Bona, 2020). É diante do colapso climático e da incessante produção de ruínas à espreita de toda sua devastação, que urihi a emerge convocando-nos a acionar outros pensares para lidar com as problemáticas contemporâneas e suas categorias inertes. Criadas e narradas pelos herdeiros da modernidade, as cisões — entre elas, Natureza e Cultura — com as quais nos acostumamos a pensar o mundo, parecem não ser suficientes para abarcar a urgência de nos adaptarmos a um planeta em transição. Nesse sentido, faz-se necessário especular junto aos saberes que já existem e a outros ainda porvir, epistemes diferentes para fomentar mundos mais comprometidos com a criação de espaços-entre; campos de potência que nos desestruturam e nos desalinham para mover o centro de lugar. É aí que um determinado cinema contemporâneo produzido em terras fronteiriças latino-americanas passa a emergir como operador de disputa sobre as sensorialidades e narrativas que compõem o imaginário de seus espectadores. Aqui, desejo partir, mais especificamente, da análise do filme Los Silencios (2017), de Beatriz Seigner, para investigar como recursos técnicos e narrativos, visuais e sonoros, podem conjurar espectros que evoquem a fantasmagoria inerente a um território vivo, borrando assim a compreensão antropocêntrica sobre as nossas fronteiras, e os outros seres que nela habitam. No que tange ao filme de Seigner, busca-se não apenas analisar de que modo ele se aproxima de urihi a em sua forma, mas também como pode operar enquanto uma fabulação alternativa à representação distópica de uma ideia ocidental e moderna de fim de mundo. Interessa também articular uma outra categoria, que chamo aqui de Imagens-ruína, para pensar em imagens que mobilizam uma resistência aos modos hegemônicos de se fazer cinema, mas também de se fazer história, propondo uma historiografia que se filia aos relatos e arquivos apagados pelo progresso. Essa investigação, portanto, situa-se nos estudos da chamada era do Antropoceno, tendo como foco a produção fílmica em terras fronteiriças entre a urbe e as matas latino-americanas. Isso quer dizer que existe um interesse especial nas imagens produzidas em zonas de contato e fricção dos meios urbanos e naturais, sobretudo aquelas que margeiam a Floresta Amazônica, o Cerrado e a Mata Atlântica nos territórios brasileiros. A aposta é que, nessas obras audiovisuais, exista um pensamento imagético guiado por um pensar-com, produzir-com, no lugar de um pensar-sobre ou um produzir-sobre. Deste modo, as hierarquias entre sujeito e objeto seriam também perturbadas, assim como aquelas entre humano e não humano ou entre nós e eles. Logo, tais imagens estariam mais próximas de urihi a do que das cisões ocidentais que apartam a natureza da cultura. Além disso, pressupõe-se que nessas produções exista um comprometimento formal e estético com um modo de narrativa que escape aos moldes ocidentais de progresso, ou de uma linearidade entre começo, meio e fim, visando assim um outro tempo. Um tempo muito mais próximo ao transe, ao sonho e à evocação de imagens técnicas espectrais. |
|
| Bibliografia | ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. O espírito da floresta: a luta pelo nosso futuro. São Paulo: Companhia das letras, 2023 |