ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Investigando sensorialidades cuir no audiovisual brasileiro dos anos 1970 e 1980 |
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| Autor | Erly Milton Vieira Junior |
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| Resumo Expandido | Parte-se aqui da compreensão que as obras audiovisuais cuir contemporâneas fazem usos de alguns modos de engajamento sensório (ou seja, usos específicos da linguagem audiovisual e da mise-en-scène para promover determinadas experiências sensórias) para promover a conexão entre corpos filmados, fílmicos e espectatoriais junto a audiências LGBTQIAPN+. Isso se dá especialmente a partir da reativação, em momentos específicos dos filmes, de memórias sensórias atreladas a situações vividas cotidianamente por esses públicos. Alguns desses modos de engajamento, como a visualidade e escuta hápticas e as câmeras-corpo, são recorrentes no cinema contemporâneo como um todo, mas quando associados a contextos cuirizados/desidentificados, com relações de espacialidade (Ahmed) e temporalidade (Freeman) para além da heteronorma, ativam um tipo de experiência que ressoa intensamente, à flor da pele, em nossos corpos: as “sensorialidades cuir/queer”. Embora muitos desses modos de engajamento sejam decorrentes das tecnologias contemporâneas, as pessoas LGBTQIAPN+ que nos antecederam também se sentiam tocadas intensamente por suas obras audiovisuais favoritas, constituindo assim suas próprias partilhas de intimidade com o corpo fílmico. Ao experimentarmos tais obras nos dias de hoje, percebemos haver outras formas de se constituir a mise-en-scêne ou de se promover torções específicas na linguagem, no tempo e espaço fílmicos para produzir regimes sensórios intensos, fascinantes e desviantes. Isso inclui, por exemplo, a adoção de pontos de vista e escuta narrativos cuirizados, como na cena da pegação no parque em A mulher que inventou o amor (Jean Garrett, 1980), ou mesmo em outros momentos do roteiro assinado por João Silvério Trevisan, permitindo aproximações entre certas ações da protagonista Tallulah e as experiências cotidianas de espectadores gays da época. Inclui ainda as coreografias corporais nas cenas de flerte, sexo, dança e prática de esportes envolvendo as jogadoras do time de futebol Gayvotas, protagonistas de Onda Nova (Ícaro Martins e José Antonio Garcia, 1983), numa visão de gênero e sexualidade bem mais atrevida que o cinema nacional da época. Também se encontra na teatralidade desidentificada que dá o tom da mise-en-scène de Anjos da noite (Wilson Barros, 1988), mesclando um ethos artificialista tão presente nos pós-modernos anos 80 quanto na tradição camp. Ou ainda, na câmera ora comedida, ora vertiginosa, que conduz os videoensaios de Rafael França, bem como na corporeidade com que a câmera de vídeo desliza pelos círculos feministas e lésbicos da vivência de exílio de Rita Moreira e Norma Bahia Pontes, ou mesmo mergulhar nas inflexões desejantes com que Djalma Limongi Batista filma o futebol em Asa Branca, desvelando outras indizíveis paixões nacionais. E também está presente na forma Ney Matogrosso, Marina Lima e Laura FInocchiaro colocavam-se em cena em seus videoclipes (ou filmes) como atos performáticos e coreográficos que traduziam, sob outros registros corpóreos e desejantes, as emergentes sensibilidades LGBTs do período. Com essa constelação, composta por obras audiovisuais endereçadas majoritariamente ao público LGBTQIAPN+ brasileiro dos anos 1970 e 1980, busca-se aqui identificar que modos de engajamento sensório são mais recorrentes no período, bem como as partilhas de intimidade junto a pessoas e coletividades cuir. Talvez não se possa falar num cinema queer/cuir brasileiro propriamente dito, já que boa parte dessas obras não foram dirigidas por pessoas LGBTQIAPN+; porém, elas nos permitem vislumbrar como suas audiências realizavam seu queercoding, evidenciando que muitos dos elementos que hoje lemos como cuirizados partiram de contribuições de pessoas não-heterossexuais nas equipes dos filmes, como profissionais de arte, roteiro e, principalmente, elenco, a partir dos gestos, poses e coreografias que afloram nos corpos em cena, redimensionando as relações entre corpos, câmeras, espaços e temporalidades. |
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| Bibliografia | AHMED, Sara. Queer Phenomenology: orientations, objects, others. Durham/London: Duke University Press, 2006. |