ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Mulheres, militância e a invenção de contra-espaços |
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| Autor | Laura de Aguiar Miranda |
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| Resumo Expandido | Nesta proposta de comunicação, recorremos ao filme Torre das Donzelas (2018), da cineasta Suzanna Lira, para pensar sobre a experiência de mulheres militantes na ditadura civil-militar brasileira (1964-1985). Reconhecemos que este filme contou com apoio e estrutura para a sua realização e ganhou uma visibilidade significativa se comparado a outros realizados por cineastas mulheres sobre a experiência feminina na ditadura. Mas, entendemos que se trata de um filme que desafia as práticas institucionais de memória e as formas convencionais de escrita da história que, ainda hoje, diante dos desafios do contemporâneo, insistem em capturar as experiências, esvaziando-as de sua multiplicidade. Nossa formação social tem como herança as marcas de uma colonialidade duradoura, que sustenta, desde o século XV até nossos dias, um projeto de dominação político-econômico-cultural expandido no movimento de ocidentalização do mundo (GROSFOGUEL, 2014). As bases cartesianas que argumentam pela égide da razão, sugerem dicotomias como a que mantém o dualismo corpo/mente e a matematização como referência para métodos de pesquisa, incluindo as ciências humanas e sociais, critérios de avaliação que investem na normatização da vida (FOUCAULT, 2015), voltada a alcançar uma verdade categórica e conclusiva. A disseminação do que se pode chamar de uma lógica ocidental implantou não só dicotomias, mas estabeleceu hierarquias traçando caminhos para o que se costuma afirmar como um modo de vida superior, que julga, classifica e prescreve destinos para outros tantos modos de viver que rebaixa, silencia, patologiza, elimina. Assim, não só encontramos a separação corpo/mente, mas a supervalorização de uma racionalidade que se faz na desqualificação, correção e contenção do corpo e, com ele, a dimensão dos afetos. Essa lógica está presente nas práticas de formação escolarizadas e não escolarizadas, como observado nos movimentos sociais. Ainda assim, no encontro com as mulheres nas lutas políticas, pudemos perceber a centralidade do sensível na sua militância e na criação do cotidiano, operando acontecimentos. A valorização desse registo equivoca a lógica hegemônica de entendimento da razão em desconexão e superioridade sobre o sensível e sugere outros modos de resistência na produção da subjetividade militante. Se o que o regime tentou impor foi um controle sobre os corpos e subjetividades, a fragmentação da vida comunitária, o isolamento e a decisão sobre vida e morte daqueles que não se sujeitavam, nos encontros com as histórias dessas mulheres que se insurgiram ao “que foram destinadas a ser” encontramos a criação de outros possíveis através da conexão com a imaginação e a arte. Realizam assim, uma discussão política a partir do afeto, que está nas relações que elas constroem entre si e o mundo. O filme Torre das Donzelas (2018) é repleto de pequenos acontecimentos que permitem reafirmar o entendimento dos afetos, como potências de vida, criados e compartilhados nas relações cotidianas. O filme recupera a história de mulheres presas políticas que ocuparam a ala de celas femininas do presídio Tiradentes, nomeada “torre das donzelas”, durante a ditadura civil-militar brasileira. Neste espaço, elas dizem que construíram um lar ou algo mais próximo possível disso. Nas palavras de Dilma Rousseff, a prisão "é um controle do espaço e do tempo, define o que você faz no seu cotidiano e como você faz. E te isola. Então qual era o nosso objetivo? Não nos isolar, ter o controle do nosso espaço dentro das nossas possibilidades e controle do nosso tempo.” (LIRA, 2018, 97min). Juntas elas buscaram reinventar e atribuir novos sentidos para aquele espaço físico, criando espaços outros ou mesmo contra-espaços. Observamos que esse exercício inventivo, numa busca por ultrapassar os limites que o presente impunha, tem relação profunda com a noção de heterotopia de Michel Foucault (2014), por isso pretendemos nos aproximar deste conceito para dar continuidade a nossa pesquisa. |
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| Bibliografia | CINEASTAS: Lucia Murat. Direção Hermes Leal. Brasil: HL Produtora de Filmes LTDA, 2016. Episódio de série (45min). |