ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Entre o Demiurgo e a mortalidade: a Teoria de Cineastas e o dom do acaso |
|
| Autor | Marcelo Carvalho da Silva |
|
| Resumo Expandido | Esta proposta de comunicação pretende pensar, de modo exploratório, algumas questões acerca da incursão do acaso no filme, constituindo-se como um desenvolvimento do texto Cineastas e Atos Fílmicos (CARVALHO, 2024). Para tanto, ressaltamos as relações entre o cineasta e o acaso com o intuito de problematizar questões de fundo que balizariam alguns fundamentos da Teoria de Cineastas. Partamos de uma concepção simples sobre o acaso enunciada em duas partes: o acaso seria (1) a incursão da matéria durante o processo de realização fílmica, incursão esta (2) não atribuível a quaisquer atos dos cineastas envolvidos na realização, admitindo-se que tanto os atos dos cineastas quanto as incursões da matéria seriam lisíveis e distinguíveis na tela. Para esta proposta, consideramos apenas os acasos que surgem durante a filmagem, deixando de fora os outros momentos da criação fílmica, como o roteiro, a montagem, a pré-produção etc., um corte que restringe bastante o caráter amplo das fontes de pesquisa da Teoria de Cineastas (GRAÇA; BAGGIO; PENAFRIA, 2015). Da mesma forma, nos ateremos às questões materiais, especificamente, à relação entre cineastas e a matéria filmada, isto é, enquanto expressada no filme. O interesse pelo acaso não é recente, e inclui do acaso absoluto como princípio organizador (Tiquismo) de Peirce (1892) à tematização do acaso no processo de criação em Salles (1998) e às funções do acaso no cinema preconizadas por Burch (2008). A imagem e o som cinematográficos são multifacetados e constituídos, por um lado, pelas intenções (racionais, sensoriais, afetivas etc.) dos cineastas e, por outro, pela dimensão da matéria que se contrapõe à intencionalidade dos cineastas pela emergência dos acasos. Decorre disso que o filme não seja o resultado imediato e direto de alguém que pensa, e que nem tudo que surge na tela é atribuível ao cineasta. Se a arte resiste e conserva a si e o que a constitui (DELEUZE; GUATTARI, 1992), haveria a possibilidade de uma cartografia do acaso no filme tanto quanto dos atos fílmicos dos cineastas, embora sua determinação seja, por vezes, mais vaga e circunstancial do que a dos atos fílmicos. Uma breve tipologia da incursão do acaso no filme levaria em conta (1) a intromissão do acaso à revelia dos cineastas, (2) a adoção do improviso como abertura controlada para o acaso enquanto método de criação (como em Câncer (1972), de Glauber Rocha), ou ainda, (3) o surgimento não programado de um elemento que acaba por ser incorporado conscientemente: um belo exemplo deste caso encontra-se em O Homem Urso (2005), de Werner Herzog, quando, já na montagem, o cineasta se põe, em off, a elaborar um pensamento sobre o carisma próprio da imagem em um plano do vento que sopra sobre a vegetação. Dado que a imagem e o som cinematográficos são (ou ainda são) majoritariamente criados pela relação do cineasta com a matéria, é-nos evidente que o acaso ganhe importância enquanto objeto de pesquisa e de problematização. Assim, levar em consideração o acaso é deparar-se com o que não é controlável no filme, que escapa à vontade do cineasta. Talvez, então, no filme, e em termos puramente materiais, o acaso não seja o inopinado, mas aquilo que escapa à determinação do cineasta, que se equilibraria entre a posição do Demiurgo e a de um mortal sujeito às contingências. Em uma forma de expressão e de arte na qual as questões de autoria ainda determinam, sub-reptícia ou explicitamente, tanto os estudos acadêmicos quanto a crítica, tratar daquilo que foge ao agente criador torna-se um passo adiante na compreensão dos meandros do filme em direção ao que Pasolini evoca ao referir-se aos elementos “irracionais, oníricos, elementares e bárbaros” do cinema (PASOLINI, 1982: 141). Afinal, nem tudo no filme pode ser atribuído aos criadores, aos cineastas, que também se constituem pelas relações que são capazes de manter com o que escapou ao próprio gesto de criação. |
|
| Bibliografia | BURCH, Nöel. “Funções do acaso.” In Práxis do Cinema. São Paulo: Perspectiva, 2008. |