ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | León Siminiani e a poética da contradição: autorrepresentação, ensaio e ficção no documentário |
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| Autor | Jamer Guterres de Mello |
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| Resumo Expandido | Este trabalho propõe uma análise do percurso criativo do cineasta espanhol León Siminiani, abordando suas formulações autorreflexivas como parte de uma epistemologia prática e poética do documentário. Partindo de dois de seus longas-metragens, “Mapa” (2012) e “Notas para um Filme sobre Assaltos” (2018), e de suas próprias declarações em textos e entrevistas, buscamos compreender de que forma suas obras mobilizam o gesto autobiográfico, tensionam as fronteiras entre ficção e documentário e forjam um estilo marcado por contradições e buscas inacabadas. A partir da perspectiva da Teoria de Cineastas, entendemos que os filmes de Siminiani não apenas refletem um processo criativo singular, mas também propõem uma teoria em ato: pensar o cinema desde o fazer cinematográfico. Em seus textos, Siminiani reconhece que seu cinema nasce da dúvida e da instabilidade criativa ao afirmar que “não escolhemos os filmes, são os filmes que nos escolhem: não fazemos o cinema que queremos, mas o que podemos” (Siminiani, 2012, p. 89-90). Essa recusa de uma coerência autoral estável desafia o imperativo de identidade projetado pelo paradigma da política dos autores, cultivado por ele como um “trauma” herdado da Nouvelle Vague (Siminiani, 2012, p. 89). “Mapa” é exemplar nesse sentido: trata-se de um filme que mistura autorrepresentação e metalinguagem em uma estrutura ensaística fragmentada na qual o cineasta expõe seus fracassos afetivos e criativos e faz da viagem um dispositivo de investigação de si. Ao mobilizar a primeira pessoa como método e não como garantia de autenticidade, Siminiani aproxima-se de cineastas-ensaístas como Chris Marker, Harun Farocki e Ross McElwee, que ele próprio reconhece como influências formativas. O autobiográfico torna-se menos um registro pessoal e antes um campo de experimentação estética e metodológica (Piedras, 2014). Em “Notas para um Filme sobre Assaltos”, o desejo de realizar um filme de ficção baseado em um assaltante real é frustrado pelo próprio contato com a realidade. No entanto, suas tentativas criam um dispositivo e o filme é gerado como uma obra sobre o próprio processo, sobre a impossibilidade e sobre a fricção com o mundo (Català, 2012). O conflito entre controle e espontaneidade, entre método e desvio, se torna a própria matéria do filme, cuja estética ensaística é atravessada por camadas de reflexão, humor e ambiguidade. Seu cinema não revela o real, mas o constrói como experiência. A contradição é assumida como método – uma poética da hesitação, do rastro, do quase. Sua obra exemplifica, assim, o deslocamento contemporâneo do documentário de uma lógica de transparência para uma lógica da implicação: trata-se de fazer do cinema um gesto autorreflexivo (Alter, 2018), em que se pensa filmando e se filma pensando (Rascaroli, 2009). Ao tensionar os códigos do documentário tradicional, Siminiani inscreve-se numa tradição pós-moderna que contesta os regimes de verdade e autenticidade, explorando o documentário como linguagem impura, permeável à ficção, à performance e à especulação. Há, portanto, uma aposta na performatividade do olhar, na construção de um sujeito que é, ao mesmo tempo, personagem, autor e investigador. Siminiani, nesse sentido, é menos um cineasta que observa o mundo do que alguém que o reinscreve a partir de suas próprias falhas de observação. A partir da Teoria de Cineastas dos processos de criação (Mello et al, 2024), os filmes de Siminiani nos oferecem não apenas objetos de análise, mas uma constelação de operações estéticas e éticas, dispositivos formais e retóricos (Plantinga, 1997) que exigem um pensamento do cinema desde o interior de seus próprios impasses criativos (Renov, 2004). Sua obra formula uma teoria do documentário como processo inacabado, como prática de si e como forma de habitar o cinema em estado de busca permanente. |
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| Bibliografia | ALTER, N. M. The essay film after fact and fiction. New York: Columbia University Press, 2018. |