ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Processos de individuação e criação audiovisual territorializada |
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| Autor | Isaac Pipano Alcantarilla |
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| Resumo Expandido | O presente trabalho promove uma abordagem crítica da pedagogia do cinema e da montagem. Para tanto, questiona paradigmas tradicionais centrados na figura autoral e na representação como regime exclusivo para a criação audiovisual em contextos educativos. O estudo investiga a criação audiovisual como processo eminentemente transindividual, coletivo e aberto ao imprevisível, desafiando a concepção convencional que limita tal processo ao produto finalizado e à centralidade autoral. Em contraposição às abordagens que se solidificaram no Brasil na última década, na esteira da Hipótese-Cinema formulada por Alain Bergala (2001), portanto, este trabalho procura assumir outra perspectiva, em busca da superação da centralidade do objeto-filme como finalidade do processo audiovisual educativo. Neste sentido, retomamos algumas ideias levantadas em estudos recentes (ALVARENGA; MIGLIORIN; PIPANO; JARDIM) que, em comum, se furtam ao regime "oculocêntrico" e à lógica autoral dominante, destacando que tal enfoque restringe significativamente a multiplicidade e a heterogeneidade das experiências cinematográficas possíveis. Em busca de gestos desviantes, propomos uma prática audiovisual não-universalizante, singular e territorializada. Para tanto, nos apoiamos em três operadores conceituais: camerar; ponto de ver e composicionar. "Camerar", conceito inventado por Fernand Deligny, define-se como o ato de capturar imagens respeitando aquilo que escapa à domesticação simbólica da linguagem, privilegiando sua materialidade em detrimento de seus significados. Diferentemente do termo "filmar", que sugere a predominância do produto final, "camerar" implica um gesto aberto, mais próximo a um “esbarrão” com o mundo do que propriamente a ordenação de um plano. Nesse sentido, o "ponto de ver" substitui o tradicional ponto de vista por permitir uma abertura relacional à multiplicidade de perspectiva. Ao deslocar o foco do olhar unívoco do sujeito para a experiência descentralizada do corpo em interação contínua com seu entorno, como uma miríade de perspectivas transindividuais, sugerimos uma ênfase nos processos de individuação que não se totalizam na imagem como expressão do ser. "Composicionar", por sua vez, propõe uma criação integrada de imagens e sons, envolvendo todos os sentidos corporais, não se limitando ao regime visual dominante. Essa prática ressalta a importância de uma abordagem não essencialista, provisória e geopoliticamente situada do audiovisual. Nessa perspectiva pedagógica, o conceito de montagem adquire centralidade como dimensão criadora, para além dos predicados tecnicizantes. Se o problema da montagem se refere sempre à escolha que induzirá um interstício entre duas imagens, o que se estabelece é uma dinâmica de diferenciação produtiva, jamais encerrada num objeto-fim, mesmo quando o filme termina na ilha de edição ou projetado na tela. Desta forma, a montagem atua pedagogicamente criando condições para um pensamento que se force na relação entre as imagens e sons que, por sua vez, dobram o pensamento ao fazê-lo pensar. Tal relação promove uma experiência semelhante ao que informa Simondon (2020a, p. 76) ao convocar um "indivíduo individuante" sempre em processo de amplificação das singularidades. Tais reflexões estão ancoradas na análise dos projetos "[des]enquadrar" e "aBarca – formação em artes para a juventude", gestados na escola Porto Iracema das Artes (KARDOSO; PIPANO). Neles, a formação audiovisual está fortemente vinculada às realidades específicas de territórios diversos e articula cartografias, memórias, aparatos e processos subjetivos. Os movimentos de territorialização e desterritorialização que emergem nas práticas audiovisuais apontam para modos de resistência ativos em face à monocultura audiovisual e suas estruturas totalizantes. |
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| Bibliografia | ALVARENGA, Clarisse (org.). Aprender com imagens: práticas audiovisuais em escolas da Região Metropolitana de Belo Horizonte e da Terra Indígena Xakriabá. Belo Horizonte: LAPA (Coleção Cinema e Educação), 2022. |