ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Cinema ecodélico: miração, território e regimes visionários |
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| Autor | Anália Alencar Vieira |
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| Resumo Expandido | A presente comunicação propõe uma inflexão no campo dos estudos psicodélicos no cinema ao deslocar o eixo estético e epistemológico dominante, historicamente centrado em produções euro-americanas dos anos 1960 e 70 e no imaginário sintético que as caracteriza, para reconhecer e valorizar outras formas de experiência visionária, enraizadas em práticas amazônicas e relacionais com a ayahuasca que persistem e se atualizam desde muito antes da chamada renascença psicodélica. A partir da análise de filmes latino-americanos contemporâneos, investiga-se como o cinema pode se tornar espaço de emergência de cosmologias não ocidentais, nas quais as plantas operam como sujeitos epistêmicos e compositivos. O conceito de miração é adotado como categoria estética e metodológica, entendida não como simples imagem alterada, mas como um modo sensível de apreensão do mundo que articula corpo, som e visão expandida, não ocularcêntrica, em experiências que desafiam os limites da linguagem e da representação. Tal categoria revela-se central para compreender como determinados filmes reorganizam seus dispositivos formais em torno de uma percepção expandida, afetiva e relacional — mais próxima do invisível e do vibrátil do que da iconografia psicodélica clássica. Ao passo que a psicodelia hegemônica se apoia, em sua maioria, no excesso de efeitos visuais, os filmes analisados reverberam as práticas que entrelaçam percepção e território, cura e cosmovisão, canto e vegetalidade. O corpus analisado inclui obras como Icaros: A Vision (Leonor Caraballo, Matteo Norzi, 2016), Los Cuatro Altares (Alonso del Río, 2023), O Jardim Fantástico (Fábio Baldo, Tico Dias, 2020) e Tato Fino (Anália Alencar, 2025). Em comum, além de serem duplas de produções peruanas e brasileiras, respectivamente, esses filmes compartilham um afastamento das formas espectaculares da psicodelia e não somente oferecem um mergulho em regimes relacionais ligados à floresta, ao corpo e à escuta, bem como prescindem do contato e da experiência direta como dispositivos mediadores das produções. Além disso, esses filmes não apenas tematizam a ayahuasca, que tampouco aparece como um elemento decorativo ou exótico, mas são atravessados por ela enquanto agente que modifica os modos da atenção e da presença, reorganizando tempo, espaço e percepção, e sugerindo uma ontologia própria, cuja tradução cinematográfica exige outro modo de fazer, ver e sentir. A partir desse conjunto, propõe-se o deslocamento estético das representações da experiência psicodélica para um “cinema ecodélico”: uma psicodelia ecológica, interespécies e cosmológica, que se realiza não pela intensificação visual, mas pela relação que acontece na escuta da floresta e do invisível. O cinema, nesse processo, é chamado a produzir não imagens de alucinação, mas atmosferas de contato. A proposta se alinha, assim, a uma crítica ao epistemicídio moderno-colonial e propõe o cinema como um dos meios possíveis de reativação de saberes insurgentes e sensíveis, capazes de refundar nossa percepção e imaginação do mundo. O cinema, nesse percurso, configura-se como prática de relação — não como espelho da experiência visionária, mas como composição em coemergência com ela e com as práticas que a sustentam. |
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| Bibliografia | CALLICOTT, Christina. Interspecies communication in the Western Amazon: music as a form of conversation between plants and people. European Journal of Ecopsychology, 4: 32-43. 2013. |