ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Migração e memória curda: reflexões e análises a partir do documentário "Vidas (ou)vidas - Yusuf" |
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| Autor | Juliana Santoros Miranda |
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| Resumo Expandido | "O nosso lugar ou a nossa pátria é onde temos memórias, onde a gente se sente bem, onde podemos compartilhar com pessoas gentis e onde podemos viver bem. Pra mim isso é pátria", diz o curdo Yusuf. Ao abordar a questão curda, que se concentra no Oriente Médio e na diáspora, é inevitável relacioná-la às lutas populares do próprio continente em que nasci e me encontro, o qual, neste contexto, escolho utilizar o termo Abya Yala. Quando as discussões sobre o tema se desdobram até o seu cerne, concluímos que se trata, de modo geral, da resistência à colonização, à apropriação da terra e ao apagamento cultural de povos originários. Tais como os zapatistas, os aymaras, os quechuas, os mapuches, os guaranis e tantos outros povos originários em países como México, Bolívia, Colômbia, Chile, Argentina e Brasil, os curdos resistem. Embora distantes geograficamente um do outro, povos da América Latina e do Curdistão se assemelham em alguns aspectos, sobretudo os concernentes ao sul global. E como isso está presente no audiovisual? Após pesquisas, levanto a hipótese de que o documentarista, filmmaker e fundador da Primata Filmes, Luís Evo, lançou, em 2024, o que, até o momento, acredito ser o primeiro filme sobre um imigrante curdo no Brasil: “Vidas (ou)vidas – Yusuf”. Biográfico, o documentário foi realizado via recursos do Edital Público nº 04/2023/SMECEJ -TEC 02/2023 da Lei Paulo Gustavo/Governo Federal, com apoio da Prefeitura Municipal de Esmeraldas -MG. Até agora, o filme foi exibido em duas escolas públicas de Esmeraldas (MG), no bairro de Andiroba, e na Mostra Audiovisual de Esmeraldas. É notável o seu potencial de conexão Brasil-Curdistão, algo que ocorre na web de maneira significativa em termos de material bibliográfico (disponibilizado principalmente via coletivos populares e solidários à causa curda), porém, incomum até então no audiovisual, especificamente. Enquanto exibe passagens de sua vida na Alemanha e no Brasil, em 2022 e 2024, o filme é narrado em off pelo próprio Yusuf e cumpre um papel significativo de representação da existência de muitos curdos: entre migrações, repressões de sua língua e cultura nos países de origem, o internacionalismo e sua nação apátrida. Outro elemento a ser pontuado sobre a produção é o perfil de personagem (ou ator social) traçado. Geralmente, filmes e documentários sobre os curdos retratam os exércitos populares de batalha e os conflitos geopolíticos em que estão atuando. Tal cenário é parte importante dessa nação, até mesmo pela própria situação de guerra constante dos países hospedeiros com os curdos, porém, já me encontrava em questionamento acerca disso: será que necessariamente todo curdo é um soldado de batalha? Alguém está mostrando os curdos de “vidas comuns”, que não estão combatendo o Estado Islâmico e comandando os cantões auto-organizados? De fato, produções como essas são difíceis de encontrar, embora a nação curda se trate de 30 a 40 milhões de pessoas. Os chamados “peshmergas” costumam ser o foco dos filmes, fotos, notícias e textos sobre o assunto, embora tal povo também tenha um histórico de perfil camponês, de aldeias e montanhas. Pretendo entrevistar o diretor e saber mais sobre a produção. Busco traçar paralelos entre a construção da memória, sobretudo a coletiva, e da identidade por meio do audiovisual, que pode servir como meio de alteridade e apoio aos conceitos de nação para um povo sem país. Como Marc Ferro reivindicou nos anos 1970: filmes são documentos, pois podemos partir das imagens para analisar criticamente um sistema de significação amplo – entre discursos e narrativas – aos quais elas pertencem. Paul Ricouer (2007), diz que a memória não se trata apenas de uma recordação do passado, mas de um processo de reconstrução e narração e Rancière (2013, p. 179-180) afirma: “em todo lugar onde algo acontece – nascimento ou morte, banalidade ou monstruosidade –, existem imagens, e o dever do cinema é captá-las”, uma citação que expressa o que busco nesta pesquisa. |
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| Bibliografia | FERRO, Marc. Cinema e história. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. |