ISBN: 978-65-86495-12-6
| Título | Para além da representação: a potência reparadora nos/dos cinemas indígenas |
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| Autor | amanda iegli tech |
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| Resumo Expandido | Nas práticas documentais hegemônicas, a imagem é frequentemente convocada a revelar uma verdade subjacente, expectativa que se intensifica nos cinemas indígenas, onde se projeta o desejo de acesso a uma “realidade autêntica”. Tal demanda, contudo, tende a reduzir a potência fabulatória dessas imagens, desviando o olhar de suas camadas sensíveis, invisíveis ou mesmo inalcançáveis, e inviabilizando uma antropologia reversa — conceito proposto por Brasil e Belisário (2016). Ainda que alguns filmes retomem a cena inaugural do contato entre indígenas e brancos, como Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006), essas narrativas não se limitam à violência, operando antes uma complexificação temporal que desestabiliza o espectador ao borrar as fronteiras entre passado e presente, entre ficção e registro, deslocando o cinema de uma função meramente representacional. Como observam Brasil e Belisário (2016), é preciso pensar essas obras para além do que se vê na tela, pois o invisível incide nas imagens e na audiência. Nessa perspectiva, o fora-de-campo assume uma importância equivalente ao que se apresenta visualmente. Nas palavras dos autores, “o fora-de-campo será justamente o que torna permeável, o que permite a pesagem, no filme, entre mundos contíguos mas profundamente díspares, incomensuráveis” (BRASIL e BELISÁRIO, 2016, p. 606). Da mesma forma, há produções indígenas que tensionam as próprias noções de autoria. É o caso de Wai’á Rini: o poder do sonho (Divino Tserewahú, 2001), cujo processo, segundo o cineasta, envolveu desmanche, remontagem e refeitura a partir de um olhar indígena “sempre múltiplo” (BRASIL e BELISÁRIO, 2016, p. 602). Essa abordagem dialoga diretamente com o outro trabalho de Brasil (2021), que repensa noções de autoria no contexto do cinema indígena. A concepção de autoria coletiva não se restringe ao cinema nem a uma população indígena específica, mas parece atravessar diversas práticas ameríndias de criação. Como escreve Els Lagrou (2014), os povos ameríndios “não estão interessados em eliminar a mão que faz; pelo contrário, parecem visar à multiplicação, em vez da ocultação, dessas mãos mediadoras [...]” (p. 770). Trata-se, portanto, de uma cosmologia da criação que se opõe à lógica da assinatura individual, e que valoriza a visibilidade das mediações e o caráter relacional do fazer artístico. Consideramos estas práticas de cinema (desde o processo de feitura e montagem, coletivo e mediado, até seu resultado na imagem, ritmo e fora-de-campo) como reparadoras (ALMEIDA e MARCONI, 2022) no sentido de não se orientam por moldes ocidentais. Como discute Guimarães (2019), enquanto o pensamento ameríndio se abre à alteridade por meio de uma experiência estética — onde o outro é afirmado em sua potência e não assimilado —, o olhar ocidental tende a buscar na experiência estética um grau de diferença que possa ser consumido, entendido, apropriado. O cinema indígena, nesse contexto, propõe não apenas outras histórias ou personagens, mas um outro regime de sensibilidade. A partir da compreensão dos cinemas indígenas como ontologicamente dissensuais, este trabalho constitui uma aproximação inicial — ainda em processo — aos estudos sobre esses cinemas, impulsionada pelo estranhamento diante de práticas que escapam às categorias analíticas convencionais. Reconheço, nessas obras, a proposição de outras cosmologias e estéticas como modos próprios de fabulação e experimentação. As práticas reparadoras que busco investigar manifestam-se tanto nos modos colaborativos de criação quanto em formas sensíveis que expandem a percepção para aquilo que escapa à visibilidade imediata. Para isso, serão analisadas duas obras recentes: A Flor do Buriti (Renée Nader Messora e João Salaviza, 2023) e Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres Peixe (Aldira Akay, Beka Munduruku e Rilcélia Munduruku, 2025), filmes desta década atravessados por nosso tempo, que tematizam, cada um à sua maneira, questões ligadas à demarcação de terras. |
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| Bibliografia | ALMEIDA, Gabriela, MARCONI, Dieison. Trabalhar imagens, reparar o visível: a política da imagem como prática reparadora. Revista FAMECOS (Porto Alegre), v. 29, jan.-dez. 2022, p. 1-13. Disponível em: https://revistaseletronicas.pucrs.br/revistafamecos/article/view/41827/27595. |